Há uma máxima frequentemente repetida na política: eleições não são vencidas apenas pela paixão dos militantes, mas pela confiança daqueles que ainda têm dúvidas. À medida que o Brasil se aproxima das eleições de 2026, cresce a percepção de que o resultado poderá ser definido não pelos extremos ideológicos, mas pelo eleitor moderado, aquele que costuma observar, comparar, ponderar e decidir apenas nos momentos finais da campanha. Em um ambiente político marcado por forte polarização, compreender o comportamento desse segmento talvez seja a chave para entender o futuro do país.
A história da filosofia política sempre dedicou atenção ao comportamento coletivo nas decisões públicas. Na Grécia Antiga, Aristóteles já afirmava, em Política, que a virtude da cidade reside no equilíbrio. Para ele, os extremos representam riscos permanentes à estabilidade das instituições, enquanto a classe intermediária e os cidadãos moderados tendem a produzir governos mais duradouros e menos sujeitos às paixões momentâneas.
Séculos depois, Políbio desenvolveu a teoria dos ciclos políticos, advertindo que todo sistema corre o risco de se corromper quando perde sua capacidade de equilíbrio. Sua defesa de um governo misto refletia justamente a necessidade de evitar que qualquer grupo concentrasse poder absoluto. Ainda hoje, sua reflexão permanece atual quando se observa o crescente radicalismo presente em diversas democracias.
Cícero, em Roma, sustentava que a política deveria estar subordinada ao bem comum e não aos interesses particulares ou às paixões populares. Em sua visão, o governante deveria convencer pelo argumento e pela prudência, nunca pelo ódio ou pela divisão permanente da sociedade. A boa política era aquela capaz de unir diferentes setores em torno de objetivos compartilhados.
Durante o Renascimento, Nicolau Maquiavel foi um observador atento da natureza humana e da disputa pelo poder. Embora muitas vezes seja lembrado apenas pela ideia de que os fins justificariam os meios, sua obra demonstra profunda preocupação com o apoio popular. Para Maquiavel, governantes que desprezam a opinião da maioria acabam perdendo legitimidade e abrindo espaço para sua própria queda.
No Iluminismo, Montesquieu destacou que a moderação constitui um dos pilares da liberdade política. Em O Espírito das Leis, defendeu que o equilíbrio entre os poderes e a contenção dos excessos garantem a sobrevivência das democracias. Já Jean-Jacques Rousseau acreditava que a vontade geral somente poderia prevalecer quando os cidadãos buscassem o interesse coletivo acima das disputas particulares.
Alexis de Tocqueville, ao estudar a democracia norte-americana no século XIX, percebeu que sociedades livres dependem de cidadãos capazes de dialogar, participar e respeitar instituições. Advertiu, porém, que a paixão política pode facilmente transformar diferenças legítimas em conflitos permanentes, enfraquecendo o espírito democrático.
No século XX, Max Weber acrescentou uma reflexão que continua extremamente relevante. Para ele, a verdadeira liderança política exige ética da responsabilidade. Governar não consiste apenas em defender convicções ideológicas, mas em avaliar cuidadosamente as consequências das decisões para toda a sociedade. Em tempos de radicalização, essa distinção torna-se ainda mais importante.
Hannah Arendt observou que uma das maiores ameaças à democracia surge quando o espaço público deixa de ser um ambiente de debate e passa a ser dominado por narrativas simplificadoras, discursos emocionais e inimigos permanentes. Para ela, a política nasce justamente da convivência entre pessoas diferentes, capazes de dialogar apesar das divergências.
Norberto Bobbio também enfatizou que a democracia depende menos da unanimidade e mais da aceitação das regras do jogo. Em sociedades pluralistas, ninguém vence para sempre, e nenhuma corrente política possui o monopólio da verdade. O fortalecimento institucional exige respeito ao adversário e disposição para negociar.
Entre os pensadores contemporâneos, o cientista político Larry Diamond tem alertado para o processo de erosão democrática observado em diversas partes do mundo. Segundo ele, o crescimento do extremismo costuma afastar os eleitores independentes, justamente aqueles que valorizam estabilidade, previsibilidade e capacidade administrativa acima dos discursos ideológicos.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de Como as Democracias Morrem, demonstram que democracias raramente desaparecem por golpes tradicionais. Elas enfraquecem gradualmente quando cresce a intolerância política, quando desaparece a disposição para reconhecer a legitimidade dos adversários e quando o eleitor deixa de valorizar o compromisso democrático acima da identidade partidária.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han acrescenta outra dimensão importante ao debate contemporâneo. Em sua análise sobre a sociedade digital, afirma que as redes sociais favorecem a indignação permanente e reduzem os espaços para reflexão. Os algoritmos tendem a premiar conteúdos emocionais, aumentando a polarização e dificultando o diálogo racional. Nesse ambiente, o eleitor moderado muitas vezes permanece silencioso, mas não necessariamente ausente.
O cientista político Francis Fukuyama também tem defendido que democracias estáveis dependem da confiança nas instituições e da existência de identidades nacionais capazes de superar divisões excessivas. Quando toda disputa política se transforma em conflito existencial, perde-se a capacidade de construir consensos mínimos necessários ao funcionamento do Estado.
No Brasil, as eleições recentes demonstraram que existe um núcleo ideológico bastante consolidado tanto à direita quanto à esquerda. Entretanto, entre esses dois polos permanece uma parcela significativa do eleitorado que não se identifica integralmente com nenhum deles. Trata-se de cidadãos que observam indicadores econômicos, qualidade dos serviços públicos, segurança, saúde, educação, ética e capacidade administrativa antes de definir seu voto.
Esse eleitor moderado normalmente não participa das disputas mais acaloradas nas redes sociais. Ele raramente aparece nos debates digitais, evita confrontos políticos familiares e costuma decidir seu voto apenas nas semanas finais da campanha. Sua discrição muitas vezes faz parecer que ele não existe, mas os resultados eleitorais frequentemente demonstram sua enorme influência.
As campanhas de 2026 provavelmente compreenderão essa realidade. A disputa continuará intensa entre os grupos ideológicos mais organizados, mas a vitória poderá depender justamente da capacidade de conquistar quem rejeita o discurso do confronto permanente. Mais do que promessas grandiosas, esse eleitor tende a valorizar serenidade, competência, credibilidade e capacidade de diálogo.
A democracia não sobrevive apenas da força das maiorias ocasionais. Ela depende da existência de cidadãos dispostos a ouvir, ponderar e decidir com autonomia. Talvez o verdadeiro protagonista das eleições de 2026 não seja aquele que mais grita nas redes sociais, mas aquele que permanece em silêncio até o momento de apertar a tecla de confirmação na urna eletrônica.
Se isso acontecer, mais uma vez a história confirmará uma antiga lição da filosofia política: são os extremos que movimentam o debate, mas quase sempre é o centro que decide o destino das nações.
