Uma pessoa acorda em Piracicaba, pega o celular e, antes mesmo de sair de casa, já entrou em contato com boa parte do planeta. Lê sobre uma guerra em outro continente, assiste a um vídeo produzido do outro lado do oceano, compra um produto fabricado na Ásia e conversa com alguém que mora no exterior. Nunca foi tão fácil saber o que acontece longe. Ainda assim, cresce a sensação de que o mundo está se dividindo. Como podemos estar tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros?
Essa pergunta atravessou épocas muito diferentes. No século XVIII, Montesquieu escreveu, em O espírito das leis, sobre a capacidade do comércio de aproximar povos e favorecer a paz. Sua ideia ajuda a compreender por que países que negociam entre si têm motivos para preservar relações estáveis. Mas a história também mostrou os limites dessa esperança. Comprar e vender produtos não basta para impedir disputas por território, influência ou poder. As relações comerciais podem criar interesses comuns sem eliminar a possibilidade de conflito.
Poucas décadas depois, Immanuel Kant procurou uma resposta mais exigente. Em À paz perpétua, de 1795, defendeu princípios para regular as relações entre os Estados e tratou da hospitalidade devida a quem chega a outro território. Kant não propôs que as fronteiras simplesmente desaparecessem. Sua preocupação era estabelecer condições políticas e jurídicas para que a convivência entre povos não dependesse apenas da boa vontade de seus governantes. A paz, em outras palavras, precisaria ser construída.
O debate continua atual porque a aproximação material do planeta avançou muito mais rapidamente do que nossa capacidade de estabelecer regras comuns. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, cerca de 6 bilhões de pessoas utilizavam a internet em 2025, o equivalente a 74% da população mundial. Ao mesmo tempo, aproximadamente 2,2 bilhões permaneciam desconectadas. Até mesmo a ideia de um mundo reunido na mesma conversa precisa, portanto, ser examinada com cuidado: uma parte expressiva da humanidade ainda não consegue participar dela.
Na década de 1960, Marshall McLuhan difundiu a imagem da “aldeia global” para pensar os efeitos dos meios de comunicação sobre a experiência humana. Hoje, a expressão parece feita para descrever a tela do celular. A notícia chega imediatamente; uma transmissão ao vivo permite acompanhar acontecimentos a milhares de quilômetros; uma fala atravessa fronteiras antes que seu autor tenha tempo de explicá-la. Entretanto, viver na mesma aldeia não significa concordar sobre suas regras nem conhecer bem os vizinhos. A comunicação aproxima acontecimentos, mas não produz entendimento por conta própria.
Há uma diferença enorme entre receber informação e compreender uma realidade. Podemos assistir, em poucos segundos, a imagens de uma guerra e continuar sem conhecer sua história, seus interesses políticos ou o sofrimento cotidiano da população civil. Podemos ler uma frase traduzida de outro idioma e acreditar que entendemos uma sociedade inteira. A velocidade favorece a circulação de notícias, mas também pode favorecer julgamentos apressados. Quanto mais depressa uma imagem se espalha, maior deveria ser nossa disposição para perguntar o que ela mostra e o que ficou fora do enquadramento.
O comércio internacional apresenta contradição semelhante. Nossas economias dependem umas das outras para obter alimentos, medicamentos, energia, componentes industriais e tecnologia. Uma decisão tomada em uma grande potência pode alterar custos para empresas brasileiras e oportunidades de trabalho em nossas cidades. Karl Marx e Friedrich Engels já observavam, no Manifesto Comunista, de 1848, que a expansão do mercado mundial criava relações entre países e transformava a produção e o consumo. A interdependência econômica, portanto, não nasceu com a internet. Ela tem uma longa história e sempre trouxe junto a pergunta sobre quem recebe seus benefícios.
Hoje, essa interdependência convive com tarifas, sanções e restrições ao acesso a tecnologias. Um estudo da Organização Mundial do Comércio identificou redução nas trocas entre Estados Unidos e China em meio às tensões entre as duas potências. Não estamos diante do desaparecimento do comércio internacional. O que vemos é uma disputa sobre quais relações serão preservadas, quais serão reduzidas e quem terá poder para estabelecer as condições dessas escolhas.
É legítimo que governos se preocupem com a segurança de suas cadeias de produção. Um país não deve descobrir, durante uma emergência, que depende de uma única fonte para obter um medicamento ou um equipamento indispensável. O problema começa quando toda relação com o exterior é apresentada como ameaça e toda negociação, como fraqueza. A busca por proteção pode se transformar em isolamento caro para a própria população. Para o Brasil, o desafio é defender seus interesses, diversificar parceiros e reconhecer que decisões tomadas longe daqui chegam ao emprego, à indústria e ao preço dos produtos.
A migração torna esse debate mais concreto porque coloca pessoas, e não apenas mercadorias, diante das fronteiras. De acordo com a Organização Internacional para as Migrações, havia cerca de 304 milhões de migrantes internacionais em 2024, aproximadamente 3,7% da população mundial. As razões para migrar são diversas: trabalho, estudo, reunião familiar, pobreza e violência não podem ser tratados como se fossem a mesma experiência. O dado também contraria a impressão de que quase todos estão deixando seus países. A grande maioria da população mundial permanece onde nasceu.
Para quem é forçado a fugir, a travessia tem outro peso. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados estimou que 117,8 milhões de pessoas estavam em situação de deslocamento forçado ao fim de 2025. Por trás desse número há famílias que perderam a segurança, a rotina e a possibilidade de escolher livremente onde viver. Uma política migratória séria precisa organizar a entrada de pessoas, planejar serviços e enfrentar redes de exploração. Também precisa reconhecer que ninguém deixa de possuir dignidade ao atravessar uma fronteira.
Hannah Arendt examinou esse problema em Origens do totalitarismo. Ao refletir sobre pessoas expulsas de seus países e privadas de pertencimento político, mostrou como os direitos humanos podem se tornar frágeis quando alguém perde a proteção efetiva de uma comunidade política. Sua reflexão ilumina uma questão incômoda do presente: proclamamos direitos universais, mas frequentemente deixamos pessoas sem meios reais de exercê-los. O modo como uma sociedade recebe quem foi obrigado a fugir revela a distância entre seus princípios e suas práticas.
As guerras expõem essa distância de forma ainda mais dolorosa. Imagens de cidades destruídas chegam às nossas telas quase no instante em que os ataques acontecem. Sabemos rapidamente onde falta água, alimento ou abrigo. Apesar disso, acompanhar o sofrimento em tempo real não significa ser capaz de detê-lo. Existe uma distância entre testemunhar uma tragédia e reunir vontade política para enfrentá-la. Em alguns casos, o fluxo incessante de imagens produz comoção; em outros, produz cansaço ou transforma vidas humanas em argumentos de uma disputa nas redes sociais.
Quando um conflito vira competição de torcidas, a população civil corre o risco de desaparecer atrás de bandeiras e discursos. Cada grupo compartilha as imagens que confirmam suas convicções, enquanto as perguntas difíceis ficam sem resposta. Quem está protegendo os civis? Quais caminhos de negociação ainda existem? Quem responde pelos crimes cometidos? Nenhuma causa deveria tornar irrelevante a vida de uma criança ou de uma família. Essa exigência não elimina os desacordos políticos, mas impede que eles apaguem as pessoas atingidas.
O pensador Edgar Morin oferece uma contribuição para compreender essas contradições. Em sua reflexão sobre a educação para o futuro, defende que aprendamos a reconhecer a condição humana e a identidade comum dos habitantes da Terra, sem perder de vista a diversidade de suas culturas e experiências. Essa perspectiva exige mais do que repetir que “somos todos iguais”. Exige perceber que problemas econômicos, ambientais, sanitários e políticos se relacionam, ainda que seus efeitos sejam distribuídos de maneira desigual.
A desigualdade é uma das razões pelas quais a promessa de um mundo unido desperta desconfiança. Os países não participam das decisões globais com a mesma força. As maiores economias têm mais capacidade de influenciar regras comerciais e tecnológicas. Muitas populações recebem os efeitos das crises sem ter participação proporcional nas escolhas que as produziram. Uma cooperação digna desse nome precisa considerar essas diferenças. Caso contrário, pedir união a quem suporta os maiores custos soa como exigir silêncio em nome de uma harmonia que nunca chegou.
Isso também vale para a internet. Podemos celebrar suas possibilidades sem ignorar quem ficou de fora ou quem só consegue acessá-la em condições precárias. Estar conectado não garante acesso a conhecimento confiável, educação ou capacidade de participar do debate público. Da mesma forma, estar exposto continuamente à opinião dos outros não nos torna mais tolerantes. A convivência exige a disposição de ouvir, verificar fatos e admitir que uma realidade distante pode ser mais complexa do que parece em uma publicação de poucos segundos.
Afinal, o mundo está ficando mais próximo ou mais dividido? As duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Montesquieu nos ajuda a perceber a força das trocas; Marx e Engels, a extensão e as tensões do mercado mundial; Kant, a necessidade de regras para a convivência; Arendt, a vulnerabilidade de quem perde a proteção política; McLuhan, o alcance dos meios de comunicação; e Morin, a urgência de pensar a humanidade em sua diversidade. Nenhum deles viveu exatamente o nosso presente, mas suas perguntas impedem que confundamos conexão com solidariedade.
O celular pode mostrar a realidade de uma família refugiada, mas não decide como iremos tratá-la. O comércio pode aproximar países, mas não determina se seus ganhos serão compartilhados. Uma transmissão ao vivo pode revelar os efeitos de uma guerra, mas não substitui a diplomacia nem a responsabilidade de quem governa. Essas continuam sendo escolhas humanas e políticas.
O mundo já aprendeu a se comunicar em segundos. Seu desafio agora é aprender a conviver. Se usarmos a proximidade apenas para vigiar adversários, disputar mercados e repetir preconceitos, teremos uma aldeia global cercada de muros. Se a usarmos para compreender diferenças, defender direitos e construir acordos, talvez a distância entre os povos diminua também onde mais importa: na maneira como reconhecemos uns aos outros.
