Há momentos em que uma geração deixa de aceitar o lugar de espectadora e decide participar da história. As manifestações estudantis expressam essa passagem: o instante em que a inquietação individual encontra uma causa coletiva, ultrapassa os portões das escolas e universidades e ocupa o espaço público. Ao longo do tempo, estudantes transformaram reivindicações por melhores condições de ensino em debates sobre liberdade, justiça social e democracia. Nem sempre estiveram unidos, nem sempre acertaram, mas sua presença nas ruas obrigou sociedades inteiras a discutir aquilo que muitos preferiam deixar em silêncio.
A relação entre juventude, conhecimento e participação política pode ser examinada à luz de pensadores de diferentes épocas. Eles não escreveram todos sobre o movimento estudantil tal como o conhecemos, mas ofereceram ideias que ajudam a compreender seu significado. Na Antiguidade, Aristóteles, em Política, relacionou a cidadania à participação nas funções deliberativas e judiciais da comunidade. Embora sua concepção estivesse limitada pelas exclusões da sociedade grega, permanece uma questão fundamental: pertencer à vida política envolve tomar parte nas decisões coletivas. Hoje, essa reflexão permite reconhecer os estudantes como cidadãos com voz no presente, e não apenas como adultos em preparação para o futuro.
Séculos depois, Jean-Jacques Rousseau, em Do contrato social, sustentou que a soberania pertence ao povo e não pode ser alienada. Sua crítica à substituição da vontade dos cidadãos pela vontade de seus representantes provoca uma reflexão atual: a participação pública não pode se encerrar no momento do voto. Guardadas as diferenças entre seu modelo e as democracias contemporâneas, as manifestações lembram aos governantes que a sociedade continua existindo, pensando e cobrando entre uma eleição e outra.
Immanuel Kant acrescentou outra dimensão a essa discussão. Em seu ensaio de 1784 sobre o esclarecimento, defendeu a liberdade de fazer uso público da razão. Para o filósofo, o amadurecimento intelectual exigia superar a dependência de tutelas e exercer o próprio julgamento. Aplicada à formação dos estudantes, essa ideia traz uma exigência: uma educação que ensina a argumentar precisa reconhecer o direito de questionar. A autonomia intelectual perde consistência quando é celebrada dentro da sala de aula e tratada como inconveniência assim que alcança a praça pública.
No Brasil, esse encontro entre formação e intervenção pública assumiu especial intensidade durante a ditadura militar. Em 1968, a morte do estudante Edson Luís, atingido pela polícia no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, tornou-se um marco da mobilização contra a repressão. A Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes e outros setores da sociedade, ampliando uma resistência que já não cabia nos limites das reivindicações universitárias. A brutalidade contra um jovem expôs o que o autoritarismo significava na vida concreta das pessoas.
As mobilizações daquela época também suscitaram reflexões de Hannah Arendt. Ao examinar as rebeliões estudantis e os conflitos políticos dos anos 1960, a pensadora distinguiu poder e violência e associou o poder à capacidade humana de agir em conjunto. Essa perspectiva ajuda a compreender por que uma manifestação pode produzir efeitos além de suas reivindicações imediatas: pessoas que se encontram, discutem e organizam uma ação descobrem sua capacidade de interferir na vida pública. A força democrática desse encontro depende da palavra, da organização e da construção de apoio.
Em 1992, os caras-pintadas voltaram a tornar visível o protagonismo estudantil, desta vez nas manifestações pelo afastamento de Fernando Collor. A juventude integrou uma mobilização mais ampla, e seria exagerado atribuir exclusivamente a ela o desfecho da crise. Seu papel, porém, permanece como exemplo da capacidade de transformar indignação em presença pública. Os rostos pintados deram expressão a uma cobrança que ultrapassava os corredores das instituições.
Paulo Freire oferece uma contribuição indispensável para compreender essa trajetória. Ao relacionar a leitura das palavras à leitura do mundo, colocou a realidade vivida no centro da formação crítica. Nessa perspectiva, estudar também envolve compreender as condições sociais que cercam o conhecimento: quem consegue chegar à universidade, quem precisa abandonar os estudos, quem tem acesso à cultura e quais oportunidades são distribuídas de maneira desigual. A participação estudantil pode nascer justamente desse encontro entre aquilo que se aprende e aquilo que se vive.
Reconhecer esse valor exige, igualmente, preservar o direito à divergência. A juventude não constitui um bloco homogêneo, e nenhuma entidade representa todas as opiniões existentes nas escolas e universidades. Uma manifestação merece ser examinada por suas propostas, seus métodos e seu compromisso com as liberdades. O entusiasmo coletivo não dispensa o pensamento crítico. Pelo contrário, torna ainda mais necessária a disposição de verificar informações, ouvir objeções e impedir que a adesão política se transforme em obediência.
É nesse percurso que se inserem as manifestações estudantis em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizadas em diferentes regiões do Brasil neste segundo turno de 2026. A mobilização reúne apoio eleitoral e reivindicações relacionadas à educação pública, aos direitos sociais e à democracia. Nas ruas, estudantes procuram dar consequência política às suas escolhas e participar da definição do país em que pretendem viver.
A UNE formalizou seu apoio e lançou a campanha “Estudantes com Lula pelo futuro do Brasil”, com mobilizações previstas até a véspera da votação. Esse posicionamento tem legitimidade como expressão de uma organização estudantil. Seu valor democrático, entretanto, dependerá também da autonomia que conservar depois das urnas. Quem hoje pede votos precisa manter a disposição de cobrar investimentos, contestar decisões e exigir compromissos cumpridos. Apoiar um presidente não significa entregar a ele a própria capacidade de julgamento.
Em meio a essas mobilizações, uma imagem merece atenção especial: a menina que ergueu um exemplar da Constituição Federal durante o ato de Lula no bairro do Alecrim, em Natal, no sábado, 10 de outubro. A cena repercutiu nas redes sociais e pode ser lida como uma síntese simbólica da defesa de direitos. Essa interpretação pertence ao debate público; não autoriza atribuir à criança pensamentos ou intenções que ela não declarou. Ainda assim, o objeto levantado oferece uma referência poderosa para a discussão política.
A Constituição erguida permite formular uma exigência dirigida a todos os candidatos e governantes: a disputa pelo poder deve respeitar os direitos e as regras que tornam possível a própria disputa. Nas manifestações em favor de Lula, essa imagem ganha força quando se transforma em compromisso duradouro com a democracia, inclusive com a liberdade de criticar o presidente apoiado.
Da resistência estudantil de outras décadas às mobilizações atuais, a contribuição mais valiosa da juventude está na capacidade de manter a vida pública aberta ao questionamento. A menina de Natal talvez tenha oferecido, com um livro levantado, a imagem mais expressiva desse horizonte: um país no qual aprender os próprios direitos seja também aprender a defendê-los. Cabe aos adultos, às instituições e aos governantes fazer com que essa promessa encontre realidade.
