A democracia suporta a era das redes sociais? A pergunta se torna inevitável quando o debate público parece premiar a agressividade, transformar adversários em inimigos e reduzir problemas complexos a vídeos de poucos segundos. A tecnologia ampliou as possibilidades de participação, deu visibilidade a demandas antes ignoradas e aproximou cidadãos dos centros de poder. Ao mesmo tempo, criou um ambiente em que conquistar atenção pode valer mais do que apresentar soluções. Nesse cenário, outra questão ganha força: será o eleitor moderado quem decidirá as eleições presidenciais de 2026?
Acredito que a democracia pode sobreviver a essa transformação, mas sua resistência depende de escolhas políticas, institucionais e sociais. Uma sociedade não preserva a liberdade apenas porque continua votando. Precisa também assegurar condições para que o cidadão forme seu julgamento, reconheça a legitimidade das diferenças e possa distinguir informação, opinião e manipulação. Quando tudo vira torcida, a eleição permanece no calendário, mas o debate que deveria qualificá-la perde substância.
O filósofo Byung-Chul Han oferece uma contribuição importante em Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Sua reflexão aponta para uma transformação do espaço público pela circulação acelerada de informações e pelas disputas digitais, nas quais campanhas podem assumir a forma de guerras informacionais. A leitura que proponho desse diagnóstico é que o excesso de mensagens não produz, necessariamente, maior capacidade de compreensão. Podemos estar permanentemente conectados e, ainda assim, encontrar dificuldade para construir um entendimento comum sobre o país.
O problema aparece quando o tempo exigido pela democracia entra em conflito com a velocidade das plataformas. Discutir uma política de saúde, uma reforma tributária ou uma proposta para a educação exige contexto, comparação e disposição para ouvir. Uma provocação, porém, pode circular antes que qualquer explicação consiga alcançá-la. Nessa dinâmica, o político é estimulado a produzir reações imediatas, enquanto o cidadão corre o risco de ser tratado como público a conquistar, em vez de interlocutor a respeitar.
O jornalista Max Fisher, em A máquina do caos, investiga como o funcionamento das plataformas e seus incentivos de engajamento podem favorecer indignação e radicalização. Seu trabalho ajuda a compreender por que determinados conteúdos encontram tanta facilidade para transformar ressentimentos em mobilização política. A disputa deixa de envolver somente o que os candidatos defendem e passa a incluir aquilo que os sistemas de distribuição tornam mais visível.
Seria precipitado, entretanto, atribuir aos algoritmos toda a responsabilidade pela polarização. Uma pesquisa publicada na revista Science, em 2023, examinou mudanças nos feeds do Facebook e do Instagram durante a eleição norte-americana de 2020. A adoção de uma organização cronológica alterou a experiência dos participantes, mas não modificou significativamente os indicadores de polarização avaliados durante os três meses do estudo. Esse resultado não encerra a discussão sobre os efeitos das plataformas, mas recomenda cautela com explicações que tratam a tecnologia como causa única de um fenômeno também político e social.
A historiadora Anne Applebaum acrescenta outra dimensão em O crepúsculo da democracia. Ao analisar a atração exercida pelo autoritarismo, ela mostra como teorias conspiratórias, polarização, redes sociais e nostalgia podem ser utilizadas por atores que abandonam compromissos democráticos. Seu argumento nos obriga a olhar também para quem produz e explora essas narrativas. A tecnologia oferece instrumentos; lideranças e grupos políticos fazem escolhas sobre como empregá-los.
É nesse ponto que a contribuição de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de Como as democracias morrem, se torna fundamental. Eles destacam a tolerância mútua e a contenção no exercício do poder como normas essenciais à preservação democrática. Reconhecer o adversário como participante legítimo e aceitar limites para a própria atuação são compromissos que precisam sobreviver à disputa eleitoral. Quando a vitória passa a justificar qualquer procedimento, as instituições ficam expostas à lógica da destruição recíproca.
No Brasil de 2026, essas reflexões ajudam a formular uma hipótese: o eleitor menos identificado com os polos pode ter peso decisivo, sobretudo em uma disputa apertada. Mas hipótese não é resultado antecipado. Sem dados específicos sobre intenção de voto, rejeição, comparecimento e possibilidade de mudança de escolha, seria imprudente afirmar que os moderados determinarão, sozinhos, quem chegará à Presidência.
Também precisamos esclarecer quem estamos chamando de moderado. O eleitor de centro, o indeciso e o cidadão cansado da hostilidade política não são necessariamente a mesma pessoa. Há quem tenha convicções firmes à direita ou à esquerda e rejeite comportamentos autoritários. Há quem não acompanhe diariamente a política, mas já tenha escolhido seu candidato. E há quem permaneça indeciso por avaliar negativamente as alternativas disponíveis. Reunir todos esses perfis sob um único rótulo empobrece a análise.
Christopher Achen e Larry Bartels oferecem uma advertência útil em Democracy for Realists. Os autores questionam a imagem idealizada de um eleitor que decide apenas pela comparação racional de propostas e ressaltam o peso das identidades sociais e das lealdades partidárias. Aplicada com cuidado ao debate brasileiro, essa perspectiva sugere que conquistar o voto de quem está fora das bases mais fiéis exige compreender vínculos, experiências e percepções, além de ajustar o discurso de campanha.
Minha avaliação é que os candidatos capazes de transmitir segurança, apresentar respostas concretas e demonstrar respeito pelas regras democráticas terão melhores condições de dialogar com quem rejeita o confronto permanente. Isso envolve falar de renda, emprego, saúde, educação e segurança pública com clareza. O eleitor pode até compartilhar uma provocação nas redes e, no momento do voto, fazer uma escolha orientada pelas dificuldades que enfrenta dentro de casa.
Há, porém, uma diferença entre adotar um tom moderado e assumir um compromisso democrático. Uma campanha pode suavizar a linguagem sem abandonar a intolerância. Por isso, o julgamento precisa considerar trajetória, propostas, alianças e atitudes diante da fiscalização, da imprensa e da possibilidade de derrota. A moderação que interessa à democracia exige comportamento consistente.
Com o segundo turno presidencial marcado para 25 de outubro, o desafio das candidaturas é ampliar apoio em uma sociedade que continuará existindo depois da apuração. A mobilização das bases, a redução das rejeições, a conquista dos indecisos e o comparecimento às urnas podem influenciar o resultado. O eleitor moderado faz parte dessa equação, mas não constitui uma garantia automática de vitória para ninguém. Tribunal Superior Eleitoral
A democracia suporta as redes sociais quando a sociedade consegue estabelecer responsabilidades, preservar liberdades e exigir qualidade do debate público. Isso passa por transparência das plataformas, educação para o uso crítico da informação, jornalismo rigoroso e lideranças dispostas a responder pelo que dizem. Passa também pela decisão individual de não compartilhar uma acusação apenas porque ela atinge alguém de quem não gostamos.
Talvez o eleitor moderado tenha influência decisiva em 2026. Sua contribuição mais importante, contudo, pode ser exigir que os candidatos voltem a conversar com o país inteiro. A eleição termina com a contagem dos votos; a responsabilidade de governar começa diante de todos os brasileiros. Quem pretende presidir uma democracia precisa compreender essa diferença antes de pedir o voto.
