Flávio Bolsonaro vai aos Estados Unidos, mas Trump joga por Trump

A ida de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, depois da derrota na eleição presidencial brasileira, pode alimentar entre seus apoiadores a expectativa de proteção política e solidariedade ideológica. Entretanto, existe uma diferença decisiva entre ser recebido por Donald Trump e ter os próprios interesses transformados em prioridade da Casa Branca. O presidente americano negociará aquilo que considerar vantajoso para si, para seu governo e para sua sobrevivência política. A afinidade com o bolsonarismo entra nessa conta, mas dificilmente será o elemento que determinará seu resultado.

Segundo a Reuters, Trump afirmou que aprovaria a entrada de Flávio e de sua família nos Estados Unidos. Na mesma manifestação, criticou a eleição brasileira, mas também disse conhecer Lula e tratou o Brasil como um país cujos assuntos lhe seriam externos. Essa combinação de acolhimento, crítica e distanciamento permite uma leitura: Trump procura conservar liberdade de movimento. Pode oferecer apoio político aos Bolsonaro e, simultaneamente, manter aberta a possibilidade de entendimento com o presidente brasileiro.

O erro seria interpretar essa relação como um compromisso incondicional. Trump tende a avaliar parceiros pelo benefício que podem proporcionar em determinado momento. Uma aproximação com Lula poderá se tornar conveniente caso produza vantagens econômicas, comerciais ou diplomáticas que ele consiga apresentar ao eleitor americano como uma vitória pessoal. Nesse cenário, os interesses de Flávio poderão ocupar uma posição secundária.

Essa interpretação encontra respaldo no debate contemporâneo sobre as relações internacionais. O cientista político Stephen Walt, professor de Harvard, descreve a atuação externa de Trump como a de uma potência que utiliza sua superioridade para extrair concessões, inclusive de parceiros próximos. Em sua análise, ameaças comerciais e pressões políticas funcionam como instrumentos para obter a maior parcela dos benefícios de um acordo. Aplicada ao caso brasileiro, essa perspectiva sugere que a solidariedade ideológica pode perder força quando surge uma oportunidade mais vantajosa de negociação. Essa aplicação é uma interpretação do episódio, não uma declaração de Walt sobre Flávio.

Outro analista, Daniel Drezner, da Universidade Tufts, discute o caráter transacional da política externa trumpista. Ao debater o tema com o também cientista político Henry Farrell, apresenta uma questão relevante: quanto das decisões de Trump decorre de objetivos de governo e quanto responde à busca de reconhecimento, autoridade e demonstrações de submissão? Embora os dois autores tenham diferenças de interpretação, o debate ajuda a compreender por que a proximidade pessoal com Trump oferece garantias limitadas.

Há, ainda, um componente que os aliados brasileiros do presidente americano precisam observar: sua fragilidade dentro dos próprios Estados Unidos. No levantamento Reuters/Ipsos realizado entre 22 e 26 de outubro de 2026, registrado pelo agregador Poliwave, Trump aparece com 32% de aprovação e 66% de desaprovação. Esse último indicador, frequentemente chamado de rejeição no debate brasileiro, mede a avaliação negativa de seu desempenho no cargo. É um desgaste expressivo para alguém que pretende manter influência sobre a sucessão presidencial.

A pesquisa também mostrou vantagem democrata na preferência nacional para o Congresso: 47% contra 36% dos republicanos. Esses números dizem respeito às eleições legislativas de 2026, e não à disputa presidencial de 2028. Ainda assim, constituem um sinal de alerta para o partido de Trump. Minha avaliação é que o desgaste atual torna bastante plausível uma volta dos democratas à Casa Branca e pode impedir que ele eleja um sucessor. Transformar essa possibilidade em certeza, porém, seria ignorar o tempo restante, a escolha dos candidatos e a dinâmica do sistema eleitoral americano.

Vale salientar que, pelas regras atuais da Constituição dos Estados Unidos, Donald Trump não pode ser eleito para um terceiro mandato presidencial. A 22ª Emenda estabelece que uma pessoa só pode ser eleita presidente duas vezes, sejam os mandatos consecutivos ou alternados. Portanto, passar um período fora da Casa Branca não renova esse limite.

No caso de Trump, eleito em 2016 e novamente em 2024, as duas eleições já atingiram o limite constitucional. A formulação mais precisa, portanto, é dizer que ele já foi eleito para dois mandatos, pois ainda está exercendo o segundo. Essa restrição se refere especificamente à Presidência e não deve ser generalizada para todos os cargos políticos dos Estados Unidos.

Um presidente pressionado internamente tem motivos para procurar resultados externos que possam ser vendidos como demonstrações de força. É nesse ponto que Lula pode entrar no cálculo. Comércio, investimentos, tarifas e interesses estratégicos oferecem espaço para conversas. Trump poderá concluir que obter concessões do governo brasileiro rende mais do que sustentar indefinidamente uma disputa em favor de um aliado derrotado.

Até uma mudança de postura em relação ao resultado eleitoral brasileiro pode integrar esse movimento diplomático. Trata-se de uma hipótese: Washington poderia reduzir questionamentos e normalizar relações enquanto negocia outros temas com Brasília. Isso exige uma distinção fundamental. A validade da eleição brasileira decorre das instituições e da vontade dos eleitores brasileiros; o reconhecimento americano tem efeitos diplomáticos, mas não constitui a legitimidade do voto.

Também Lula precisará agir com pragmatismo. Conversar com Trump pode ser necessário para defender interesses brasileiros. Essa negociação, contudo, deve preservar a autonomia das instituições e evitar que questões judiciais sejam tratadas como concessões pessoais entre governantes. Há espaço para entendimento entre Estados sem transformar a soberania nacional em objeto de barganha.

Flávio pode encontrar acolhimento nos Estados Unidos, mas não controla o preço político desse apoio nem sua duração. Há muita coisa em jogo para que a relação seja conduzida apenas pela afinidade entre lideranças. Se negociar com Lula oferecer a Trump uma vantagem maior, a aproximação poderá acontecer. O bolsonarismo precisa considerar essa possibilidade: na política de Trump, a fidelidade de um aliado vale enquanto contribuir para os objetivos do próprio Trump.

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