Se os séculos conversassem, o Brasil provavelmente pediria ao passado que apagasse algumas mensagens. A leitura de 1808, 1822 e 1889, de Laurentino Gomes, provoca uma sensação incômoda: mudaram os figurinos, os meios de transporte e as formas de comunicação, mas certos hábitos do poder continuam extraordinariamente bem conservados. A trilogia percorre a chegada da corte portuguesa, a Independência e a Proclamação da República. Nossa sátira começa onde terminam essas páginas: na suspeita de que o país modernizou a eleição com mais velocidade do que democratizou suas relações de poder.
Não se trata de atribuir ao escritor uma análise das eleições de 2026. A comparação é nossa. Mas, diante da disputa presidencial, dá vontade de acrescentar um volume imaginário à estante: 2026: como uma República com saudades de corte transformou o futuro em uma discussão sobre quem merece voltar ao palácio.
Em 1808, a monarquia atravessa o Atlântico para preservar sua existência diante do avanço napoleônico. Na versão eleitoral contemporânea, a travessia pode ser bem mais curta: basta atravessar de uma aliança para outra. Há personagens da política brasileira capazes de desembarcar em qualquer governo com a expressão serena de quem sempre esteve naquele navio. Mudam a bandeira da embarcação, conservam a cabine e ainda anunciam que a viagem atende exclusivamente ao interesse nacional.
A corte de hoje dispensa carruagens. Circula em agendas reservadas, negociações partidárias e fotografias cuidadosamente enquadradas. O beija-mão ganhou assessoria de comunicação. A reverência passou a ser divulgada como diálogo institucional. E a velha proximidade com o soberano pode aparecer nas redes como compromisso inabalável com o povo, preferencialmente acompanhada de uma trilha emocionante.
Já 1822 oferece uma pergunta especialmente inconveniente: independência para quem? A separação de Portugal não significou o fim da escravidão nem a distribuição do poder entre todos os habitantes. A ruptura política conviveu com profundas continuidades sociais. É uma lembrança útil para campanhas que anunciam a refundação nacional com a facilidade de quem troca a identidade visual de uma repartição.
Em 2026, o grito do Ipiranga caberia perfeitamente em um vídeo vertical. Teria legenda, música épica, três cortes de câmera e um pedido para compartilhar antes que o adversário “escondesse a verdade”. O problema viria depois da postagem: transformar independência em autonomia concreta para quem depende de emprego precário, enfrenta filas e precisa escolher qual conta pagar. A soberania fica muito bonita no palanque; precisa também chegar à mesa.
Rousseau ajuda a perceber o tamanho dessa distância. Em sua concepção de soberania popular, a vontade coletiva não se reduz ao desejo particular de quem governa. Trazida para o presente, essa reflexão impõe uma cobrança simples: receber votos não transforma o país em propriedade do vencedor. A faixa presidencial não é escritura, o Palácio do Planalto não é herança e o eleitor não assina procuração para deixar de fiscalizar.
O terceiro livro, 1889, permite outra provocação. A queda da monarquia não produziu, por encanto, uma República de participação ampla. A mudança de regime não eliminou as exclusões que organizavam a sociedade. Nossa especialidade histórica parece ser anunciar uma casa inteiramente nova enquanto parte dos antigos proprietários continua escolhendo quem pode entrar pela porta da frente.
Mas há uma diferença decisiva entre aquele momento e o presente: o voto popular ocupa hoje um lugar central na escolha do governo. Reconhecer as insuficiências da democracia exige também reconhecer essa conquista. A sátira perde a inteligência quando transforma épocas distintas em uma coisa só. O Brasil de 2026 tem direitos, instituições e possibilidades de participação que não existiam em 1889. Justamente por isso, merece ser cobrado por aquilo que ainda não realiza.
Na disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Nantes Bolsonaro, que chegam ao segundo turno presidencial de 25 de outubro, o eleitor enfrenta escolhas concretas entre trajetórias, propostas e projetos políticos. Reduzir essa decisão a uma briga entre personagens históricos seria tão cômodo quanto insuficiente. O paralelo mais produtivo está na relação que cada candidatura propõe estabelecer com o Estado, com os limites do poder e com quem pensa de maneira diferente.
Lula deve ser cobrado pelo governo que exerce e pelo futuro que oferece. Flávio deve ser cobrado por sua trajetória, suas propostas e pelo legado político que pretende representar. Nenhum dos dois merece imunidade crítica concedida pelo medo do adversário. Quando toda cobrança passa a ser interpretada como traição, o eleitor corre o risco de trocar a cidadania por uma função de assessoria voluntária.
Maquiavel, frequentemente convocado para justificar qualquer esperteza, poderia ajudar a examinar a distância entre aparência e ação. Na campanha, todos se apresentam como defensores da liberdade, da família, da justiça e do trabalhador. A dificuldade começa quando é preciso verificar o conteúdo dessas palavras. Até a corte mais interessada em conservar privilégios saberia produzir um excelente programa eleitoral sobre renovação.
Hannah Arendt oferece outra chave ao distinguir a verdade factual das opiniões que formulamos sobre o mundo. Podemos divergir sobre prioridades econômicas, políticas sociais e caminhos para o desenvolvimento. Outra coisa é ajustar os fatos à conveniência da torcida. Se cada grupo fabrica o próprio passado e escolhe quais acontecimentos aceita reconhecer, o debate público vira uma reunião de cortes rivais, cada qual com seu cronista oficial.
Entre os pensadores contemporâneos, Byung-Chul Han ajuda a refletir sobre uma comunicação digital que pode fragmentar a atenção e empobrecer o debate. A provocação cabe no bolso: o cidadão recebe uma biblioteca de informações pelo celular e, ainda assim, pode terminar o dia com menos disposição para compreender uma ideia inteira. O algoritmo não exige coerência histórica. Exige que ninguém pare de olhar.
Assim, problemas que atravessam governos e gerações são espremidos em vídeos de poucos segundos. A desigualdade vira bordão. A segurança pública vira demonstração de valentia. A educação aparece como promessa de prioridade eterna. E o adversário deixa de ser alguém que precisa ser contestado para se tornar alguém cuja existência justificaria qualquer concessão do nosso lado.
O legado da trilogia de Laurentino Gomes, tomado aqui como ponto de partida para a reflexão, é um convite a desconfiar das versões excessivamente arrumadas da história. O país não foi construído apenas por gestos heroicos, datas solenes e retratos oficiais. Houve interesses, conflitos, improvisações e exclusões. Também o futuro não será resolvido por um personagem providencial que, depois da posse, dispensará a sociedade do trabalho de pensar.
A eleição de 2026 não precisa ser uma reencenação do século XIX. Pode ser uma oportunidade de demonstrar que aprendemos alguma coisa com ele. Isso exige comparar propostas, cobrar resultados, preservar as regras democráticas e aceitar que a fiscalização continue depois da vitória de nossa preferência.
Em 1808, chegou a corte. Em 1822, rompeu-se o vínculo com Portugal. Em 1889, caiu a monarquia. Em 2026, falta demonstrar, mais uma vez, quem manda na República.
Porque, se o cidadão baixar a cabeça depois de apertar o botão, a corte nem precisará voltar. Bastará agradecer pelos votos.
