A ideia de meritocracia, em sua essência, carrega um princípio nobre: o de que o sucesso e as conquistas individuais devem ser frutos do esforço, dedicação e talento. É o sonho de que todos partem do mesmo ponto de largada e que, com trabalho duro, qualquer pessoa pode chegar aonde quiser. Contudo, quando aplicada em sociedades profundamente desiguais como a brasileira, essa noção perde sua pureza teórica e passa a operar mais como um mito conveniente do que como uma realidade justa.
O filósofo francês Pierre Bourdieu argumenta que as estruturas sociais perpetuam desigualdades através do que ele chamou de “capital cultural”, isto é, o conjunto de conhecimentos, hábitos e acessos que uma pessoa adquire dentro de seu contexto familiar e social. Assim, quando dois jovens — um nascido em uma família de classe média alta e outro em uma favela — disputam uma vaga numa universidade pública, o discurso meritocrático ignora o abismo de oportunidades que existiu entre os dois desde o berço. O mérito, nesse caso, já chega viciado.
Michael Sandel, professor de Harvard e autor do livro A Tirania do Mérito, também critica severamente essa ideia. Para ele, a meritocracia tem promovido não apenas desigualdades, mas também humilhações morais. Aqueles que “vencem” se consideram merecedores e superiores, enquanto os que não alcançam o sucesso são vistos como fracassados por falta de esforço, e não como vítimas de uma estrutura desigual. Esse julgamento moral é cruel e invisibiliza as barreiras reais enfrentadas por milhões de pessoas diariamente.
No Brasil, onde a desigualdade social é histórica e estrutural, o uso da meritocracia como justificativa para políticas públicas ou critérios de ascensão social acaba mascarando a urgência de medidas reparadoras. Quando o Estado se abstém de garantir condições mínimas de dignidade — como saúde, educação de qualidade e segurança — e ainda assim cobra esforço individual, perpetua-se uma lógica perversa: cobra-se mérito de quem mal teve oportunidade de sobreviver.
É verdade que o esforço individual deve ser valorizado. Todos temos responsabilidade pelas nossas escolhas e atitudes. No entanto, defender a meritocracia como critério absoluto de justiça em uma sociedade desigual é ignorar o ponto de partida de cada um. É como exigir que todos corram uma maratona, mas amarram os pés de alguns antes da largada.
Essa distorção meritocrática também tem reflexos profundos na forma como enxergamos o sucesso. A romantização da superação individual — como no caso de pessoas que “venceram na vida” apesar das adversidades — serve mais como exceção que confirma a regra do que como modelo a ser seguido. Exaltar essas trajetórias sem refletir sobre as centenas de histórias que não chegaram lá é uma forma de justificar a desigualdade, não de enfrentá-la.
Além disso, o discurso meritocrático muitas vezes é usado como ferramenta ideológica para deslegitimar políticas afirmativas, como cotas raciais ou sociais. Argumenta-se que essas medidas “privilegiam” determinados grupos, quando, na verdade, elas buscam corrigir injustiças históricas e dar um mínimo de equidade nas condições de disputa. A ausência dessas políticas seria o verdadeiro favorecimento aos já privilegiados.
A filósofa brasileira Djamila Ribeiro aborda essa questão ao afirmar que o discurso da meritocracia, quando descolado do reconhecimento das opressões estruturais, é desonesto. Em seu livro O que é lugar de fala?, ela ressalta como o racismo, o machismo e o elitismo moldam as oportunidades e os acessos sociais. Dizer que todos têm as mesmas chances, ignorando essas forças, é perpetuar uma mentira que afeta a vida de milhões.
Importante também é refletir sobre como esse modelo afeta a saúde mental da população. Em um sistema que culpa o indivíduo pelo seu fracasso, gera-se uma constante sensação de inadequação, de cobrança e de culpa. Jovens periféricos, negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+ vivem pressionados a provar constantemente que são “bons o suficiente”, enquanto enfrentam obstáculos invisíveis e silenciados por esse discurso meritocrático.
A verdadeira justiça social começa quando reconhecemos que igualdade de oportunidades não é ponto de partida, mas um objetivo a ser construído. E isso exige mais do que esforço individual — exige consciência, políticas públicas efetivas e o comprometimento real com a transformação estrutural. O mérito deve existir, sim, mas apenas quando for possível assegurar que todos estejam, de fato, na mesma linha de partida.
