A análise de que as eleições presidenciais de 2026 poderão ser decididas pelos eleitores pendulares ou moderados está, em essência, correta. Entretanto, é importante distinguir esses dois conceitos. Eles podem se encontrar no momento da votação, mas não representam exatamente o mesmo comportamento político.
O eleitor pendular, também chamado de volátil ou “swing voter”, é aquele que muda de lado entre uma eleição e outra. Pode ter votado na esquerda em determinado momento e, posteriormente, escolher um candidato da direita, ou realizar o movimento contrário. Essa mudança não significa necessariamente falta de consciência política. Muitas vezes, ela resulta da avaliação do governo, da situação econômica, das características dos candidatos ou da rejeição a quem está no poder.
Esse eleitor não está propriamente dentro da polarização. Na realidade, ele circula entre os polos porque não mantém fidelidade permanente a nenhum deles. Seu voto pode ser influenciado pela renda, pelo emprego, pelo preço dos alimentos, pela segurança pública, pela corrupção, pelo desempenho do governo e pela expectativa de mudança. Em alguns casos, sua escolha é menos ideológica e mais pragmática: ele vota em quem acredita que poderá melhorar concretamente sua vida.
O eleitor moderado também precisa ser compreendido com maior precisão. Não se trata simplesmente de alguém disposto a votar em qualquer candidato à Presidência da República. O moderado é aquele que tende a rejeitar posições extremas, valoriza a estabilidade institucional e costuma defender soluções negociadas. Ele pode estar localizado no centro, na centro-esquerda ou na centro-direita e, por isso, também pode mudar de candidato conforme as circunstâncias.
A principal diferença é que o eleitor pendular é definido pela mudança de voto, enquanto o moderado é identificado por sua posição política e por sua preferência por propostas menos radicais. Um eleitor pode ser moderado e permanecer fiel ao mesmo campo político durante várias eleições. Da mesma maneira, uma pessoa pode trocar de lado sem ser moderada, apenas porque passou de uma posição radical para outra.
Nas eleições de 2026, porém, esses dois grupos poderão se sobrepor. O voto decisivo tende a estar justamente entre os brasileiros que não possuem identidade partidária rígida, não se consideram integrantes permanentes de nenhum dos polos e avaliam os candidatos de acordo com os acontecimentos da campanha. São eleitores que podem até apresentar alguma preferência inicial, mas não tratam sua escolha como uma identidade definitiva
A polarização continuará mobilizando parcelas expressivas da sociedade. De um lado, haverá eleitores dispostos a votar no candidato que represente o campo liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro, permanecerá um eleitorado identificado com o bolsonarismo e com sua representação eleitoral. Esses dois blocos garantem pontos de partida importantes, mas podem não ser suficientes para formar uma maioria.
Levantamento do Real Time Big Data divulgado em 1º de setembro mostrou Lula com 38% e Flávio Bolsonaro com 30% no primeiro turno. Em uma eventual disputa direta, ambos apareceram com 44%, evidenciando o peso dos votos que ainda precisam ser conquistados fora das bases mais fiéis. A mesma pesquisa também registrou espaço para candidaturas alternativas, com Augusto Cury alcançando 11% e Renan Santos aparecendo com 7%. Os dados reforçam que existe uma parcela do eleitorado aberta a outros caminhos.
Esse cenário mostra que a eleição pode ser menos uma disputa para converter adversários ideológicos e mais uma batalha para convencer quem não está inteiramente comprometido com nenhum dos lados. Um eleitor fortemente identificado com a esquerda dificilmente será conquistado pela direita, assim como um bolsonarista convicto dificilmente votará em um candidato ligado ao PT. O espaço real de crescimento está entre aqueles que ainda comparam opções, observam a campanha e podem mudar de posição.
Um estudo qualitativo do instituto Democracia em Xeque identificou um grupo de eleitores pendulares sensível ao noticiário, pragmático e sem identidade partidária fixa. Segundo a análise, muitos desses eleitores justificam sua escolha mais pela rejeição a um candidato do que por uma adesão entusiasmada ao outro. Esse comportamento pode ser determinante em uma disputa equilibrada.
Por isso, a rejeição provavelmente será uma das variáveis centrais da campanha. Em eleições polarizadas, nem sempre vence o candidato que desperta maior entusiasmo. Frequentemente, vence aquele que consegue ser menos rejeitado fora de sua própria base. O eleitor pendular pode votar não no nome que considera ideal, mas naquele que lhe parece representar o menor risco político, econômico ou institucional.
Nesse ponto, o segundo turno transforma a lógica da escolha. No primeiro, o eleitor pode votar por afinidade, experimentar uma candidatura alternativa ou manifestar insatisfação com os dois principais campos. No segundo, diante de apenas duas opções, a decisão tende a ser orientada pela comparação direta. O voto de esperança pode dar lugar ao voto útil, ao voto defensivo ou simplesmente ao voto contra o candidato mais rejeitado.
A economia também terá grande influência. Embora valores políticos, religião, segurança e costumes continuem relevantes, parte considerável do eleitorado julgará o governo pela experiência cotidiana. Não basta apresentar indicadores positivos se o cidadão continua enfrentando dificuldades para pagar o supermercado, o aluguel, os medicamentos ou as contas domésticas. Da mesma forma, a oposição precisará demonstrar que possui uma alternativa viável, e não apenas explorar o desgaste de quem governa.
Os candidatos que desejarem conquistar o eleitor moderado terão de apresentar equilíbrio, previsibilidade e capacidade de diálogo. Discursos voltados exclusivamente às bases mais radicalizadas podem produzir repercussão nas redes sociais, mas também afastar quem procura estabilidade. A comunicação agressiva mobiliza militantes, porém nem sempre convence o cidadão que está cansado da confrontação permanente.
Já o eleitor pendular será disputado pela capacidade de oferecer mudança sem aventura ou continuidade sem acomodação. Se o governo convencer esse grupo de que ainda representa segurança e possui um projeto para o futuro, poderá ampliar sua votação. Se a oposição conseguir apresentar renovação, competência e responsabilidade institucional, poderá atrair aqueles que desejam encerrar o ciclo atual sem assumir riscos excessivos.
Também existe a possibilidade de uma candidatura alternativa conseguir transformar o cansaço com a polarização em força eleitoral. Entretanto, ocupar o espaço do centro exige mais do que declarar independência em relação aos dois polos. É necessário construir estrutura partidária, presença nacional, propostas consistentes e confiança suficiente para que o eleitor acredite que aquela candidatura possui condições reais de governar.
Assim, as eleições de 2026 provavelmente não serão decididas apenas pelos eleitores mais apaixonados, embora sejam eles que produzam maior barulho nas ruas e nas redes sociais. O resultado poderá estar nas mãos de uma parcela menos visível: os brasileiros que mudam de voto, rejeitam fidelidades automáticas e aguardam até os momentos finais para decidir.
O eleitor moderado e o eleitor pendular não são sinônimos, mas podem formar juntos o centro decisório da eleição. Enquanto os polos garantem as bases, são os votos móveis que constroem a maioria. Em uma disputa equilibrada, o próximo presidente da República poderá ser escolhido não por quem grita mais alto, mas por quem observa, compara e muda de direção quando acredita que o país também precisa mudar.
