A cada eleição para vereador ou deputado, a pergunta volta: como alguém com muitos votos ficou de fora enquanto outro, com menos votos, foi eleito? A dúvida é legítima. No Brasil, essas cadeiras são preenchidas pelo sistema proporcional. Primeiro, os votos ajudam a definir quantas vagas cabem a cada partido ou federação. Depois, os candidatos disputam essas vagas conforme sua votação individual e as demais regras eleitorais. Assim, os mais votados de toda a cidade ou de todo o estado não são, necessariamente, os eleitos.
O sistema ainda funciona? Na minha avaliação, sim, no sentido de que procura representar diferentes correntes políticas no Legislativo. Uma Câmara não deve ser apenas uma coleção de vencedores individuais; ela também precisa refletir a distribuição dos votos entre grupos políticos. Mas uma regra que a maioria dos eleitores não consegue explicar enfrenta um problema sério de confiança. Quando o resultado surpreende e ninguém mostra claramente como foi calculado, a impressão é de que houve uma manobra, mesmo quando a apuração seguiu a lei.
A conta principal pode ser explicada sem transformar o eleitor em especialista. O quociente eleitoral é obtido pela divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras em disputa. Se uma cidade teve 200 mil votos válidos para vereador e sua Câmara oferece 20 vagas, o quociente eleitoral será de 10 mil votos. Em seguida, calcula-se o quociente partidário: divide-se a votação total de cada partido ou federação, formada pelos votos em seus candidatos e na legenda, pelo quociente eleitoral. Se um partido somou 30 mil votos, terá inicialmente direito a três cadeiras. O cálculo despreza a fração nessa etapa. As vagas que restarem são distribuídas pelas regras das chamadas sobras eleitorais.
É aí que aparece a situação que mais provoca indignação. Imagine um candidato com 8 mil votos em um partido que não conquistou cadeira e outro com 5 mil votos em uma legenda que obteve vagas. O segundo pode ser eleito porque sua votação integra o resultado coletivo do partido. O voto dado a um nome também ajuda a eleger outras pessoas daquela mesma lista. Isso deveria ser explicado com clareza durante toda a campanha, especialmente por quem pede o voto.
Há, portanto, uma responsabilidade dos próprios candidatos. Durante a campanha, muitos pedem o voto como se disputassem uma eleição individual e evitam dizer que fazem parte de uma lista. O eleitor tem o direito de saber quem são os demais candidatos do partido ou da federação e quais ideias esse grupo defende. Conhecer apenas o nome escolhido é conhecer somente uma parte do caminho que o voto percorrerá.
O cientista político Jairo Nicolau, ao estudar a lista aberta brasileira, chama atenção para uma característica importante do nosso modelo: o eleitor escolhe um candidato ou vota na legenda, mas a distribuição das cadeiras depende da votação do grupo. Na urna, vemos o nome e o número de uma pessoa; a lista de concorrentes beneficiados pela soma dos votos não aparece diante de nós. Essa distância entre a experiência de votar e a forma de apurar ajuda a explicar por que tantos eleitores acreditam que a eleição deveria seguir apenas a classificação individual.
Isso não significa que toda crítica ao sistema proporcional esteja certa. O cientista político Luis Felipe Miguel argumenta que culpar exclusivamente a lista aberta pelos problemas da representação deixa de lado questões como o acesso à informação e a capacidade da sociedade de acompanhar seus representantes. Ele tem razão nesse ponto: trocar a fórmula eleitoral, por si só, não fará o eleitor conhecer melhor os partidos, fiscalizar mandatos ou entender para onde foi seu voto.
Também precisamos reconhecer que a conta não termina nos dois quocientes. Há exigência de votação individual para o preenchimento das vagas obtidas inicialmente e regras específicas para a distribuição das sobras. Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral estabelece uma primeira etapa das sobras com requisitos de votação para partidos ou federações e candidatos; se ainda houver cadeiras, a etapa seguinte inclui todos os partidos e federações participantes, independentemente desses mínimos. Portanto, qualquer explicação que prometa revelar o resultado apenas dividindo votos por vagas estará incompleta.
A solução começa antes da votação. A Justiça Eleitoral poderia divulgar simulações curtas com números da própria cidade ou do próprio estado. As escolas poderiam trabalhar uma eleição fictícia em sala de aula, permitindo que os estudantes distribuam as cadeiras e vejam o efeito de cada voto. Os partidos deveriam apresentar, de forma fácil de consultar, quem concorre em sua lista ou federação. E a imprensa tem a responsabilidade de mostrar a conta ao anunciar os eleitos, em vez de publicar somente um ranking de candidatos mais votados.
Depois da apuração, o eleitor deveria encontrar uma explicação simples para cada resultado: quantos votos válidos houve, qual foi o quociente eleitoral, quantos votos cada partido ou federação recebeu, quantas cadeiras obteve inicialmente e como foram preenchidas as restantes. Esses dados já fazem parte do processo; o desafio é apresentá-los em uma linguagem que qualquer cidadão possa acompanhar.
Uma forma prática de aproximar a regra da população seria divulgar, antes da eleição, simuladores com resultados fictícios e, depois da apuração, uma explicação visual para cada cadeira conquistada. Em poucos passos, qualquer pessoa poderia acompanhar a soma dos votos, a distribuição das vagas e a posição de seu candidato. Quando a conta fica visível, o debate pode deixar de girar em torno da suspeita e passar a discutir o que realmente importa: se o modelo representa bem a sociedade e como aperfeiçoá-lo.
Não considero justo chamar de “derrota da democracia” toda eleição em que o candidato mais votado de uma lista geral fica sem mandato. Essa possibilidade decorre de uma escolha pelo sistema proporcional. Mas também não considero aceitável pedir que a população confie em uma regra que raramente lhe é ensinada. O sistema pode continuar a servir ao Brasil, desde que o eleitor saiba, antes de apertar o botão confirma, que está ajudando a escolher uma pessoa e a definir a força política do partido ou da federação dela. Entender o destino do próprio voto é parte do direito de votar.
