Do plenário ao ringue digital: o Brasil elege deputados ou influencers?

A Câmara dos Deputados está se tornando uma extensão das redes sociais? Os resultados das eleições de 2026 dão força a essa pergunta. A impressão de que os políticos estão cedendo espaço aos influencers traduz uma mudança preocupante nos critérios de escolha dos representantes: a capacidade de conquistar atenção parece, em muitas situações, pesar mais do que a capacidade de construir soluções. O vídeo circula, a provocação mobiliza, o nome ganha popularidade e o voto chega. Mas quem consegue dominar uma tela também consegue exercer um mandato?

Nas urnas de 4 de outubro, Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, recebeu 3.119.318 votos. Lucas Pavanato, do PL de São Paulo, conquistou 3.038.438. Erika Hilton, do PSOL paulista, alcançou 1.596.472 votos. Foram os três candidatos mais votados para a Câmara dos Deputados no país. Em diferentes campos ideológicos, seus resultados evidenciam a força de lideranças que ocupam intensamente o debate digital. Isso não permite atribuir cada voto às redes sociais, mas torna impossível ignorar sua importância na construção dessas projeções políticas.

Outros resultados ajudam a dimensionar o cenário. André Fernandes, do PL do Ceará, recebeu 684.732 votos; Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, conquistou 560.223; Kim Kataguiri, do Missão de São Paulo, obteve 520.071; e Jeffrey Chiquini, do Novo do Paraná, chegou a 425.399. São votações expressivas que precisam ser examinadas também à luz da disputa por visibilidade, reconhecimento e identificação política. A urna continua contando votos, mas a campanha passa cada vez mais pela conquista de espaço no celular do eleitor.

Seria exagerado afirmar que toda a Câmara deixou de ter políticos e passou a ter influencers. Alguns desses nomes já possuem experiência parlamentar, e comunicação competente pode acompanhar trabalho consistente. A preocupação começa quando a influência se transforma no principal certificado de preparo e quando a atividade pública passa a ser organizada em função do próximo conteúdo. Nesse ambiente, uma intervenção pode valer mais pelo potencial de viralização do que por sua contribuição ao debate.

A lógica é sedutora. Estudar um orçamento exige tempo. Explicar uma proposta exige contexto. Negociar uma solução exige disposição para ouvir e, frequentemente, aceitar concessões. Uma provocação bem editada oferece recompensa imediata. O adversário aparece constrangido, os apoiadores comemoram e o recorte circula como demonstração de superioridade. O risco é transformar o Parlamento em uma competição permanente de cenas, na qual vencer a discussão diante da câmera importa mais do que resolver o problema fora dela.

O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han oferece uma referência para compreender essa transformação. Em Infocracia: digitalização e a crise da democracia, ele analisa como o regime da informação altera as relações de poder e transforma campanhas em disputas informacionais. Sua crítica ajuda a perceber que o aumento da circulação de mensagens não assegura uma democracia mais esclarecida. Aplicando essa reflexão ao cenário brasileiro, podemos perguntar quanto espaço resta para o julgamento cuidadoso quando a política chega ao eleitor como uma sequência de estímulos urgentes. Essa aplicação é uma interpretação do nosso contexto, não uma análise de Han sobre as eleições brasileiras de 2026.

Manuel Castells, em O Poder da Comunicação, examina como as relações de poder foram modificadas pelas redes e pela possibilidade de indivíduos produzirem mensagens com alcance de massa. Sua obra permite entender por que estruturas tradicionais de campanha passaram a disputar espaço com lideranças capazes de construir grandes audiências próprias. Na leitura que proponho, o candidato conectado pode entrar diariamente na casa do eleitor sem percorrer o caminho que antes exigia reuniões, organizações locais e contato presencial.

É nesse ponto que surge uma questão decisiva para as cidades: candidatos influencers podem receber votos em municípios onde nunca pisaram. A comunicação digital permite conquistar confiança e identificação à distância, sem conhecer pessoalmente os bairros, os serviços públicos ou as dificuldades daquela população. Isso não autoriza afirmar, sem comprovação, que determinado eleito jamais visitou uma cidade. Expõe, porém, uma possibilidade concreta desse modelo: ser muito conhecido pelos moradores e conhecer muito pouco da realidade deles.

Também seria equivocado exigir que um deputado federal represente apenas o município onde mora ou condicionar a legitimidade do voto a uma visita. Há causas nacionais, compromissos ideológicos e direitos que ultrapassam fronteiras municipais. Entretanto, quando milhares de pessoas de uma cidade ajudam a eleger alguém, é razoável cobrar canais de escuta, disposição para compreender suas demandas e prestação de contas. A distância física pode ser superada. A indiferença não deveria ser aceita como consequência natural da popularidade.

Para cidades como Piracicaba, o desafio é avaliar o vínculo que permanece depois da eleição. O candidato pode estar presente todos os dias no celular e ausente quando a população procura uma resposta. Pode conhecer os assuntos que mobilizam sua audiência e desconhecer as necessidades de quem lhe entregou o voto. Essa relação exige uma cobrança que vá além do entusiasmo eleitoral: como o mandato ouvirá esses cidadãos e de que maneira responderá a eles?

A socióloga Zeynep Tufekci acrescenta outra contribuição. Em Twitter and Tear Gas, ela investiga a potência e as fragilidades dos movimentos mobilizados por redes digitais, inclusive suas dificuldades para sustentar mudanças ao longo do tempo. Transportada com cautela para a disputa parlamentar, essa reflexão sugere que reunir uma multidão e manter uma atuação política consistente são capacidades diferentes. Uma campanha pode crescer rapidamente; um mandato exige organização, continuidade e responsabilidade. Essa aproximação é uma interpretação, pois o livro trata de movimentos e protestos, não desses candidatos brasileiros.

Os partidos também precisam responder por essa transformação. No sistema proporcional, a votação de um candidato participa da definição das cadeiras conquistadas por sua legenda ou federação. Assim, uma personalidade de grande alcance pode ampliar a bancada e contribuir para a eleição de outros nomes. O eleitor que escolhe alguém pela familiaridade com seus vídeos participa, ao mesmo tempo, da formação de um grupo parlamentar cujas posições merece conhecer.

Nada disso torna o eleitor incapaz de decidir ou faz da internet uma inimiga da democracia. As redes podem divulgar propostas, ampliar a fiscalização e abrir espaço a vozes que encontravam barreiras nos meios tradicionais. O problema aparece quando a familiaridade produzida pela exposição contínua dispensa a investigação sobre preparo, trajetória e compromissos. Ver alguém todos os dias não significa conhecer seu trabalho. Concordar com uma provocação não significa ter avaliado um projeto político.

As eleições de 2026 devem servir de alerta também aos políticos tradicionais. Muitos perderam capacidade de diálogo, se acomodaram em estruturas partidárias e trataram o eleitor como alguém a ser procurado apenas na campanha. A ascensão das lideranças digitais encontra terreno nessa ausência. Recuperar a confiança exige presença, comunicação clara e resultados que possam ser examinados.

A democracia precisa de representantes capazes de comunicar e de trabalhar quando a câmera está desligada. Precisamos cobrar dos eleitos projetos, fiscalização, coerência nas votações e disposição para responder à sociedade. Se a Câmara passar a funcionar segundo as necessidades de audiência de seus integrantes, o cidadão corre o risco de ser tratado como seguidor de um personagem, quando deveria ser reconhecido como titular de direitos.

O teste começa depois da vitória. É quando os milhões de votos precisam se converter em responsabilidade pública, inclusive diante das cidades que contribuíram para o resultado sem receber a visita do candidato. O Brasil já sabe que esses nomes conseguem conquistar atenção. Agora precisa acompanhar o que farão com o poder que receberam. Porque um vídeo pode terminar com aplausos, enquanto o problema da população continua exatamente no mesmo lugar.

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