As eleições de 2026 impõem uma reflexão incômoda às lideranças religiosas que transformaram sua influência espiritual em instrumento de mobilização eleitoral: ao aproximarem tanto a identidade evangélica do bolsonarismo, teriam contribuído para tornar dispensáveis os próprios candidatos das igrejas? A pergunta merece atenção. Quando o fiel passa a reconhecer a defesa de sua fé principalmente na figura de um líder político, o pastor pode continuar conduzindo o culto, mas perder a capacidade de orientar o voto.
É preciso, entretanto, definir corretamente o fenômeno. A derrota de representantes tradicionais das denominações não comprova, por si só, uma diminuição de toda a bancada evangélica. Candidatos que se declaram evangélicos, mas constroem sua projeção pela militância bolsonarista e pelas redes sociais, também conquistaram espaço. O que os resultados evidenciam é o desgaste de parte da representação vinculada às estruturas das igrejas, acompanhado da ascensão de outras formas de mobilização político-religiosa.
Alguns números ilustram essa mudança. Cezinha de Madureira caiu de 143.434 votos, em 2022, para 60.596, em 2026, e não se reelegeu deputado federal. David R. R. Soares também ficou fora da Câmara, passando de 93.831 para 61.366 votos. Paulo Freire Costa manteve o mandato, mas recuou de 161.675 para 99.388 votos. Na outra ponta, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos identificados com o bolsonarismo e com forte presença digital, alcançaram votações expressivas. Esses resultados são compatíveis com uma mudança na representação do eleitorado conservador, embora não permitam rastrear individualmente a transferência de votos.
Minha interpretação é que algumas lideranças religiosas podem ter criado uma concorrência que agora ameaça sua própria influência. Durante anos, setores desse campo político apresentaram Bolsonaro como defensor privilegiado dos valores cristãos. Se o critério decisivo passa a ser a fidelidade ao bolsonarismo, o candidato indicado pela denominação deixa de ter preferência automática. O eleitor pode escolher aquele que considera mais combativo, mais conhecido ou mais presente na tela do celular.
Nesse ambiente, o influenciador leva uma vantagem importante: acompanha o eleitor diariamente. Enquanto o representante da igreja depende de reuniões, recomendações e aparições em cultos, o candidato digital participa de uma rotina contínua de vídeos, comentários e confrontos. A familiaridade produzida pelas redes pode superar o vínculo institucional. O eleitor conhece o nome recomendado pelo pastor, mas sente que convive com o personagem que aparece todos os dias em seu telefone. Como o pastor prega o bolsonarismo no altar, então o eleitor entende que ele pode votar em qualquer candidato ligado o clã bolsonarista, e não necessariamente no candidato oficial da igreja.
Surge, então, a questão mais delicada: alguns pastores estão deixando de pregar Jesus Cristo para pregar Bolsonaro? Seria injusto estender essa acusação a todas as igrejas ou a todos os ministros religiosos. Há comunidades dedicadas ao acolhimento, à assistência social e à formação espiritual, assim como existem evangélicos de diferentes posições políticas. Mas a pergunta precisa ser enfrentada onde o sermão se converte em propaganda, a divergência eleitoral recebe tratamento de desvio espiritual e um político passa a ocupar o lugar de referência moral incontestável.
A tradição cristã oferece elementos para essa crítica. Nos Evangelhos, a exigência de amar o próximo, a atenção aos vulneráveis e a advertência contra a hipocrisia religiosa colocam responsabilidades que nenhuma fidelidade partidária deveria suspender. Apoiar um candidato é uma escolha política legítima. Transformar esse apoio em medida da autenticidade da fé é outra coisa. Um cristão não deveria precisar apresentar sua preferência eleitoral para ter reconhecido seu pertencimento à comunidade.
Santo Agostinho, entre os séculos IV e V, desenvolveu em A Cidade de Deus uma distinção entre a ordem terrena e a cidade de Deus que impede reduzir o horizonte cristão a um projeto de poder temporal. Sua reflexão não corresponde à concepção moderna de Estado laico, mas ajuda a formular uma advertência atual: nenhum governo, partido ou dirigente pode ser confundido com a realização plena da promessa cristã. Quando uma liderança política recebe uma devoção que a coloca acima da crítica, a própria comunidade religiosa deveria reconhecer o perigo.
No século XVII, Baruch Espinosa examinou, no Tratado Teológico-Político, como o medo e a esperança alimentam a superstição e podem ser utilizados para sustentar a dominação. Aplicada ao presente, sua reflexão ajuda a questionar discursos que mantêm os fiéis em estado permanente de ameaça: a família será destruída, a igreja desaparecerá, a fé será perseguida, somente determinado líder poderá impedir a catástrofe. Essa aplicação é uma interpretação contemporânea de seu pensamento, mas o mecanismo descrito pelo filósofo continua reconhecível.
John Locke, na Carta sobre a Tolerância, de 1689, também confrontou a confusão entre religião e disputa por poder. Sua defesa da tolerância tinha limites históricos, mas afirmava uma distinção fundamental entre os propósitos da comunidade religiosa e os interesses da autoridade civil. Essa reflexão oferece um critério para avaliar a pressão eleitoral dentro das igrejas: a orientação espiritual perde legitimidade quando é utilizada para constranger a consciência política do fiel.
Já Max Weber, no início do século XX, analisou a autoridade carismática, sustentada pela devoção às qualidades atribuídas a uma pessoa. Sua contribuição permite compreender como a confiança pode se deslocar da instituição para o líder. No caso brasileiro, minha hipótese é que parte da autoridade antes concentrada nas lideranças denominacionais tenha sido absorvida por personagens políticos apresentados como defensores extraordinários da comunidade. O pastor recomenda; o líder carismático mobiliza uma identificação que pode ultrapassar a recomendação pastoral.
Entre os pensadores atuais, Byung-Chul Han, em Infocracia, examina como a digitalização modifica o debate público e favorece formas de influência que enfraquecem a reflexão democrática. Sua análise ajuda a entender a vantagem dos candidatos que dominam a circulação de mensagens nas plataformas. Um vídeo de indignação chega rapidamente a milhares de pessoas; a discussão de um projeto exige atenção, tempo e disposição para ouvir. Quando a política se organiza pelo impacto imediato, a visibilidade pode valer mais do que a capacidade de representar.
Jason Stanley, em Como Funciona o Fascismo, analisa mecanismos como a propaganda, a fabricação de ameaças e a divisão da sociedade entre um “nós” virtuoso e um “eles” perigoso. Sua obra não autoriza classificar automaticamente todo conservador ou eleitor evangélico como fascista. Ela oferece, contudo, instrumentos para criticar qualquer discurso que apresente adversários como inimigos da religião e transforme a lealdade a um líder em obrigação moral. Uma comunidade que deixa de admitir perguntas fica mais vulnerável à manipulação.
A insistência eleitoral nos templos também pode produzir cansaço. Pesquisa do ISER, com trabalho de campo da Quaest, divulgada em setembro, apontou que oito em cada dez entrevistados eram contrários à discussão política dentro de espaços religiosos. O levantamento ouviu 15 mil eleitores e mostra uma resistência relevante à politização desses ambientes. Não comprova que essa rejeição tenha causado as derrotas de outubro, mas torna plausível investigar o desgaste provocado pela campanha no púlpito.
O fiel pode concordar com pautas conservadoras e, ao mesmo tempo, rejeitar a pressão do pastor. Pode votar em um influenciador de direita por identificação própria, enquanto se incomoda com a presença de candidatos no culto. Portanto, o enfraquecimento da orientação eleitoral de uma igreja não significa necessariamente o abandono do conservadorismo. Pode significar que o eleitor passou a buscar sua referência política em outro lugar.
Também existem outras explicações: atuação parlamentar, disputas internas nas denominações, desempenho partidário, renovação de nomes e capacidade de comunicação. A própria eleição oferece exceções à tese de um declínio uniforme. Sóstenes Cavalcante, pastor e aliado de Silas Malafaia, ampliou sua votação. Isso reforça a necessidade de evitar uma explicação única para resultados diferentes.
A crítica central, portanto, deve recair sobre o uso da confiança religiosa para limitar a liberdade de escolha. Igrejas podem contribuir com o debate público, defender direitos, denunciar injustiças e incentivar a participação cidadã. Mas uma comunidade de fé deveria formar consciências capazes de julgar também os políticos que seus líderes apoiam. Se a cobrança moral desaparece quando o aliado erra, o discurso religioso se torna seletivo e perde credibilidade.
Talvez algumas lideranças estejam descobrindo que ensinaram seus fiéis a reconhecer a autoridade política fora da própria igreja. Ao fazerem do bolsonarismo uma expressão privilegiada da identidade cristã, podem ter fortalecido candidatos que hoje dispensam a indicação denominacional. A hipótese merece pesquisa; a responsabilidade pastoral merece reflexão imediata.
O desafio das igrejas não deveria ser recuperar o controle sobre o voto, mas preservar a liberdade de consciência e a integridade da mensagem que anunciam. Nenhum candidato merece um cheque em branco espiritual. Quando o púlpito transforma um político em referência incontestável, corre o risco de perder duas vezes: a influência eleitoral para o influenciador e a autoridade moral diante do fiel.
