A República dos recortes: como a direita transforma vídeos em votos e conquista o poder

A eleição de 2026 expôs uma transformação que a política tradicional ainda parece ter dificuldade para compreender: a presença de um candidato na vida do eleitor já não depende de sua presença física na cidade. Ele pode nunca ter participado de uma reunião naquele bairro, desconhecer os problemas de uma estrada regional e não possuir qualquer trajetória ligada ao município, mas aparecer diariamente no celular de milhares de moradores. Essa convivência pela tela produz familiaridade, identificação e confiança. Quando chega a eleição, o rosto visto repetidamente nas redes pode ser mais reconhecido do que o de quem passou anos trabalhando na região.

Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, ambos do PL, são exemplos expressivos dessa mudança. Pavanato foi eleito deputado federal por São Paulo com 3.038.438 votos, liderando a disputa paulista. Não foi, porém, o mais votado do Brasil: Nikolas Ferreira, em Minas Gerais, recebeu 3.119.281 votos e ficou à frente dele. São votações para a mesma categoria de cargo, mas obtidas em eleitorados estaduais diferentes, o que exige cuidado ao comparar sua representatividade. Eduarda, por sua vez, recebeu 1.956.238 votos e foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa paulista.

Esses números exigem uma análise que vá além do espanto ou da condenação dos eleitores. Milhões de votos não podem ser explicados apenas pela frase confortável de que “as pessoas foram manipuladas”. O eleitor pode escolher conscientemente um candidato por suas posições conservadoras, pela oposição ao governo, por convicções religiosas ou por rejeitar determinadas agendas culturais. O ponto central é compreender como essas preferências encontram, na comunicação digital, um mecanismo capaz de convertê-las em adesão eleitoral de grande escala.

O recorte de vídeo é especialmente eficiente porque entrega uma história política completa em poucos segundos. Há um problema, um adversário, um confronto e alguém apresentado como vencedor. Uma discussão complexa pode ser reorganizada como uma cena de coragem individual. O candidato aparece enfrentando aquilo que seu público rejeita, enquanto as hesitações, os antecedentes e as respostas mais elaboradas ficam fora do enquadramento. Para quem assiste, a sensação pode ser a de ter presenciado uma demonstração definitiva de competência.

Recortar, evidentemente, não significa necessariamente mentir. Todo jornal, programa de televisão e discurso de campanha seleciona informações. A questão é o critério da seleção e sua fidelidade ao acontecimento. Um vídeo curto pode esclarecer uma posição ou deformá-la. Pode tornar acessível uma discussão ou eliminar justamente os elementos necessários para compreendê-la. O risco surge quando a vitória na edição passa a ser tomada como prova de superioridade política, intelectual e administrativa.

A repetição completa esse processo. Quem aparece todos os dias comentando acontecimentos, respondendo a adversários e reafirmando valores constrói uma presença cotidiana. Essa presença pode estabelecer uma relação assimétrica: o eleitor sente que conhece intimamente o candidato, embora o candidato desconheça sua vida e as necessidades de sua comunidade. O vínculo parece pessoal, mas foi produzido para uma audiência de milhares ou milhões de pessoas.

É nesse sentido que se pode compreender a votação expressiva fora das bases municipais de origem. Pavanato e Eduarda lideraram, respectivamente, as votações para deputado federal e estadual em Campinas, por exemplo. Isso demonstra alcance eleitoral além dos municípios nos quais exerceram seus mandatos.

Para parte desse eleitorado, a proximidade ideológica pesa mais do que a proximidade geográfica. O candidato distante pode ser percebido como alguém que defende seus valores, enquanto o político local é visto como representante de interesses que o eleitor rejeita. A pergunta que orienta a escolha deixa de ser apenas “o que ele fez pela minha cidade?” e passa a incluir “quem enfrenta aquilo que considero uma ameaça?”. O voto se organiza, assim, em torno de pertencimentos que atravessam fronteiras municipais.

Isso ajuda a explicar a força das disputas culturais. Segurança, religião, aborto, feminismo e identidade não são temas abstratos para quem os associa à educação dos filhos, à organização da família ou à sua visão de sociedade. A direita que domina essa linguagem oferece uma interpretação emocionalmente compreensível do mundo e um personagem disposto a defendê-la. Eduarda construiu parte de sua projeção pública com posições contrárias ao feminismo e ao aborto, em uma campanha associada à de Pavanato. Essa associação também mostra que o crescimento digital pode envolver transferência de reconhecimento entre candidaturas.

A eficácia desse modelo não elimina uma contradição: defender uma identidade é diferente de demonstrar capacidade para exercer um mandato. Um deputado precisa examinar orçamento, fiscalizar o Executivo, compreender projetos, construir acordos e responder pelas consequências de suas decisões. Essas atividades raramente oferecem a mesma intensidade dramática de uma discussão filmada. A política corre o risco de premiar a habilidade de produzir confrontos enquanto deixa em segundo plano a competência para resolver problemas.

Byung-Chul Han oferece uma referência para pensar esse desequilíbrio em Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Sua crítica questiona a promessa de que mais circulação de informação produziria, automaticamente, mais democracia. Na comunicação conduzida por plataformas e algoritmos, seguidores e reações não equivalem necessariamente à formação de um coletivo capaz de deliberar com responsabilidade. Aplicada ao cenário eleitoral brasileiro, essa reflexão sugere uma preocupação: podemos ampliar a participação aparente enquanto enfraquecemos o tempo e a disposição necessários para discutir decisões públicas.

Giuliano da Empoli, em Os engenheiros do caos, examina como estrategistas, especialistas em dados e comunicadores ajudaram a reorganizar movimentos populistas. Uma contribuição de sua análise é mostrar como comportamentos antes considerados defeitos políticos podem ser apresentados como sinais de autenticidade. A provocação vira franqueza; a ruptura de convenções, independência; o conflito permanente, disposição para enfrentar o sistema.

Zeynep Tufekci acrescenta outra dimensão em Twitter and Tear Gas, ao analisar a potência e a fragilidade da mobilização em rede. A facilidade de reunir pessoas rapidamente não assegura a construção da capacidade organizacional necessária para sustentar objetivos políticos. Transportada com cautela para a disputa eleitoral, essa reflexão coloca uma pergunta decisiva: a comunidade que compartilha vídeos e ajuda a eleger um candidato conseguirá também acompanhar seu mandato, questionar suas escolhas e cobrar resultados? Mobilizar para a vitória e organizar para a fiscalização são tarefas diferentes.

Seria igualmente equivocado concluir que os algoritmos, isoladamente, produziram essas votações. Para demonstrar quanto cada fator contribuiu, seriam necessários estudos sobre exposição aos conteúdos, gastos de campanha, apoios, organização partidária e comportamento dos eleitores. As redes oferecem distribuição e visibilidade; as preferências políticas oferecem receptividade; os partidos e aliados ajudam a converter reconhecimento em votos. A própria associação entre candidaturas mostra que a imagem do influenciador inteiramente independente pode esconder uma estrutura política bastante concreta.

O fenômeno também revela dificuldades dos adversários. Campanhas que falam apenas em linguagem burocrática, apresentam realizações sem explicar seu impacto e aparecem nas redes somente durante o período eleitoral encontram obstáculos para disputar atenção com personagens que mantêm uma narrativa contínua. A resposta democrática exige comunicação compreensível, presença cotidiana e disposição para ouvir. Exige, sobretudo, evitar o desprezo por quem votou nesses candidatos. Tratar milhões de pessoas como incapazes de decidir apenas reforça a narrativa de que existe uma elite política que não as respeita.

Há ainda uma questão regional que merece atenção. A eleição de candidatos de grande alcance digital pode reduzir o espaço de lideranças vinculadas a demandas municipais e regionais. Isso não torna ilegítimo o voto em alguém de fora: deputados federais e estaduais são eleitos pelo conjunto do estado e têm responsabilidades que ultrapassam sua cidade de origem. Mas a representação precisa ser examinada depois da eleição. Um candidato que conquistou votos em centenas de municípios deverá demonstrar como ouvirá essas comunidades e incorporará suas necessidades ao mandato.

Esse teste se torna mais relevante quando observamos o Senado. Das 54 cadeiras disputadas em 2026, 40 serão ocupadas por novos senadores e 14 por reeleitos. Trata-se de uma renovação expressiva, embora menor que a registrada em 2018. O PL elegeu 19 senadores e deverá iniciar 2027 com 28 cadeiras, a maior bancada da Casa. Portanto, houve avanço substancial da direita, mas é preciso distinguir a força de um campo político da existência de uma maioria automaticamente coesa em todas as votações.

Em São Paulo, a eleição de Guilherme Derrite, do PP, e André do Prado, do PL, reforçou esse avanço. Os dois venceram Simone Tebet e Marina Silva. O resultado também impede uma explicação exclusivamente centrada nos vídeos curtos: Prado traz uma trajetória de articulação parlamentar, enquanto Derrite reúne projeção política e atuação na segurança pública. A direita mostrou capacidade de combinar comunicação digital, candidaturas conhecidas, estruturas partidárias e alianças.

A mudança no Senado tem consequências duradouras porque seus integrantes exercem mandatos de oito anos e participam de decisões centrais para o equilíbrio institucional. A composição da Casa influencia a aprovação de autoridades, a agenda legislativa e a relação entre os Poderes. Uma eleição pode transformar uma mobilização alimentada diariamente nas redes em poder institucional que atravessará mais de um governo. A interpretação de que tudo se resume a uma febre passageira, portanto, subestima o alcance do processo.

Ao mesmo tempo, renovação de nomes não garante renovação de práticas. Um parlamentar jovem pode reproduzir métodos antigos, assim como um político experiente pode apresentar soluções novas. A avaliação precisa considerar o uso dos recursos públicos, a qualidade da fiscalização, a transparência e a disposição para prestar contas. Se a renovação apenas substituir personagens, preservando a política como disputa permanente por exposição, seu potencial de mudança será limitado.

O maior desafio começa quando o candidato precisa sair da cena em que controla a narrativa e entrar no processo em que responde pelas consequências. No vídeo, pode escolher o trecho, a legenda e o momento da publicação. No mandato, encontrará restrições orçamentárias, interesses conflitantes, regras jurídicas e cidadãos que precisam de respostas concretas. A contundência que rende compartilhamentos terá de demonstrar utilidade diante de uma fila de atendimento, de uma escola precária ou de uma política de segurança que não funciona.

A eleição de Pavanato e Eduarda mostra que a direita compreendeu uma forma poderosa de construir reconhecimento e identidade política. O avanço no Senado indica que esse movimento já alcançou posições capazes de influenciar o Estado por muitos anos. O julgamento democrático, porém, não pode terminar na contagem dos votos. Deve continuar na fiscalização dos mandatos, inclusive por aqueles que os apoiaram.

Uma democracia pode conviver com candidatos populares, comunicação incisiva e posições conservadoras. O que ela precisa exigir é que a popularidade se submeta à responsabilidade pública. Quem recebeu milhões de votos conquistou legitimidade para representar, mas não recebeu dispensa de explicar, ouvir e entregar resultados. O vídeo pode apresentar um candidato ao eleitor. É o mandato que revelará a dimensão de seu compromisso com a sociedade.

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