A democracia cansou o eleitor ou foi a política que desistiu dele?

A cada eleição, partidos e candidatos repetem que o futuro está nas mãos do eleitor. Discursos são renovados, slogans prometem mudança e antigas propostas reaparecem com novas embalagens. Entretanto, uma pergunta incômoda permanece: o cidadão ainda acredita que seu voto é capaz de transformar a realidade ou comparece às urnas apenas para cumprir uma obrigação?

A chamada fadiga democrática não significa necessariamente que a população passou a rejeitar a democracia. O que parece estar desaparecendo é a confiança na maneira como ela tem funcionado. O eleitor continua valorizando a liberdade de expressão, o direito de escolher seus representantes e a possibilidade de substituir governantes, mas demonstra crescente desconfiança em relação aos partidos, às instituições e aos próprios políticos.

O cientista político Yascha Mounk afirma que existe uma desconexão democrática quando os cidadãos mantêm formalmente o direito de votar, mas deixam de acreditar que suas escolhas realmente influenciam as decisões do poder. Em “O Povo contra a Democracia”, ele alerta que o descontentamento com os resultados do sistema pode abrir espaço para líderes que prometem soluções rápidas, desprezam limites institucionais e apresentam o autoritarismo como sinônimo de eficiência.

Esse risco aumenta quando a democracia é percebida apenas como uma sucessão de eleições. Votar é indispensável, mas não é suficiente. Quando o cidadão escolhe seus representantes e depois passa quatro anos sem ser ouvido, a participação política se transforma em um ato episódico. O eleitor deposita o voto na urna, mas frequentemente não se reconhece nas decisões tomadas em seu nome.

Pierre Rosanvallon, em “A Contrademocracia”, observa que a desconfiança não representa obrigatoriamente o fim da participação. Muitas vezes, o cidadão deixa de confiar nos representantes, mas passa a fiscalizar, denunciar, protestar e cobrar. A sociedade pode demonstrar menos entusiasmo com os partidos e, ao mesmo tempo, acompanhar intensamente a política pelas ruas e pelas redes sociais. O problema começa quando essa vigilância não produz participação construtiva e se transforma apenas em indignação permanente.

As redes sociais ampliaram essa contradição. Nunca se discutiu tanto política, mas raramente se conversou tão pouco. O debate público foi convertido em uma disputa por atenção na qual vence, muitas vezes, não o argumento mais consistente, mas a frase mais agressiva, o vídeo mais revoltante ou a acusação que provoca maior repercussão.

Em “Infocracia”, Byung-Chul Han sustenta que o excesso de informação não fortalece automaticamente a democracia. Ao contrário, pode fragmentar a sociedade, enfraquecer a busca por uma verdade compartilhada e transformar as campanhas eleitorais em guerras de informação. O cidadão recebe milhares de mensagens, opiniões e denúncias, mas dispõe de pouco tempo para refletir sobre elas. A política passa a ser consumida como entretenimento, enquanto a indignação se torna um produto altamente lucrativo.

Nesse ambiente, o eleitor não é convencido a apoiar um projeto, mas estimulado a odiar o adversário. Em vez de esperança, oferece-se medo. Em vez de propostas, produzem-se inimigos. Em vez de explicar como melhorar a saúde, a educação, a segurança e a economia, parte dos candidatos prefere afirmar que somente sua vitória poderá impedir uma catástrofe.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como as Democracias Morrem”, alertam que o enfraquecimento democrático contemporâneo nem sempre ocorre por meio de golpes tradicionais. Muitas democracias são corroídas lentamente, inclusive por governantes eleitos, quando adversários passam a ser tratados como inimigos ilegítimos, instituições são atacadas e regras somente são respeitadas quando favorecem determinado grupo. Para os autores, a preservação do regime depende de partidos comprometidos com as normas democráticas e dispostos a impedir que lideranças autoritárias sejam normalizadas. Harvard University

A fadiga democrática também nasce da distância entre promessa e resultado. O eleitor não perdeu a capacidade de compreender a política. Ele percebe quando as mesmas lideranças mudam de partido, adaptam o discurso conforme a conveniência e reaparecem nas eleições como se não tivessem responsabilidade pelos problemas que denunciam. A descrença não é apenas resultado da desinformação. Em muitos casos, é consequência direta das frustrações acumuladas.

No Brasil, a desigualdade torna essa frustração ainda mais profunda. Para quem aguarda meses por uma consulta médica, enfrenta transporte público precário, teme a violência e vê o salário perder poder de compra, a democracia não pode existir apenas como um princípio abstrato. Ela precisa produzir dignidade, oportunidades e serviços públicos eficientes. Quando o Estado não entrega resultados mínimos, o discurso do salvador da pátria encontra terreno fértil.

Isso não significa que a democracia tenha fracassado. Significa que ela precisa ser aperfeiçoada e defendida todos os dias. O relatório de 2024 do Latinobarómetro identificou uma recuperação do apoio democrático na América Latina depois de uma década difícil, mostrando que a sociedade ainda é capaz de renovar sua confiança no regime. Ao mesmo tempo, o levantamento reforça que essa confiança depende da percepção de que as instituições conseguem responder às necessidades da população. Latinobarómetro

Recuperar o eleitor exige mais do que campanhas publicitárias. Exige partidos com identidade, representantes presentes, prestação de contas, transparência e disposição para ouvir quem pensa diferente. Também exige educação política, imprensa responsável e instituições capazes de aplicar a lei sem submissão a interesses partidários.

A democracia precisa voltar a ser percebida não apenas como o direito de escolher quem governa, mas como a possibilidade concreta de influenciar os rumos da comunidade. Conselhos municipais, associações, audiências públicas, organizações civis e mecanismos permanentes de fiscalização podem aproximar o cidadão das decisões. A participação fortalece o sentimento de pertencimento e aumenta a resistência democrática, como destaca o relatório global do International IDEA. International IDEA

O eleitor ainda acredita na política? Talvez a resposta mais correta seja: ele deseja acreditar, mas está cansado de ser decepcionado. Continua votando, discutindo, cobrando e procurando alternativas porque, apesar de toda a frustração, compreende que abandonar a política significa entregar as decisões justamente àqueles que se beneficiam de sua ausência.

A democracia não morre somente quando as urnas desaparecem. Ela também adoece quando o cidadão deixa de esperar qualquer coisa delas. Combater a fadiga democrática, portanto, não é obrigar o eleitor a acreditar novamente nos políticos. É fazer com que a política volte a merecer a confiança do eleitor.

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