A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Pelo contrário, ela existe justamente porque as sociedades são formadas por pessoas com ideias, valores, interesses e projetos diferentes. O problema começa quando a divergência deixa de ser entendida como parte legítima da vida pública e passa a ser tratada como uma guerra na qual o adversário precisa ser eliminado. No Brasil, a polarização política ultrapassou os limites do debate eleitoral e avançou sobre as relações familiares, os ambientes de trabalho, as igrejas, as universidades e as redes sociais. O resultado é uma sociedade que conversa cada vez menos e desconfia cada vez mais.
É importante reconhecer que algum grau de polarização pode ser saudável. Ele ajuda a diferenciar projetos políticos, mobiliza a população e oferece escolhas mais claras ao eleitor. Uma democracia sem conflitos provavelmente esconderia desigualdades, silenciaria grupos sociais e impediria a renovação das ideias. O perigo surge quando a polarização deixa de ser programática e se torna afetiva. Nesse estágio, as pessoas já não discordam apenas das propostas do outro grupo: passam a rejeitar moralmente quem pensa diferente.
Os pesquisadores Pablo Ortellado, Marcio Moretto Ribeiro e Leonardo Zeine, ao analisarem evidências sobre a polarização brasileira, identificaram justamente a presença da chamada polarização afetiva entre os cidadãos politicamente mais engajados. Isso significa que as identidades políticas podem ser movidas mais pela rejeição ao grupo adversário do que pela concordância com um programa. O eleitor escolhe um lado não necessariamente porque conhece e aprova suas propostas, mas porque considera intolerável a possibilidade de vitória do outro. A política transforma-se, então, em uma competição permanente para impedir o inimigo de chegar ao poder. O estudo foi publicado pela revista Opinião Pública, da Unicamp.
A cientista política Jennifer McCoy utiliza a expressão “polarização perniciosa” para descrever sociedades divididas em dois campos que se enxergam com profunda desconfiança. Nessa situação, a identidade política passa a ocupar o centro da identidade social. O cidadão começa a avaliar instituições, notícias, decisões judiciais e até fatos objetivos conforme o grupo ao qual pertence. Se uma decisão favorece o seu lado, ela é considerada legítima; se beneficia o adversário, passa a ser denunciada como fraude, perseguição ou conspiração. O compromisso com as regras democráticas torna-se condicionado ao resultado do jogo. McCoy e Murat Somer mostram como essa divisão entre “nós” e “eles” pode corroer as democracias.
Esse comportamento representa uma ameaça porque a democracia não depende somente da Constituição e das leis. Ela também necessita de valores compartilhados e de limites que nem sempre estão escritos. Em Como as Democracias Morrem, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt destacam duas normas essenciais: a tolerância mútua e a reserva institucional. A primeira exige que os grupos reconheçam os adversários como participantes legítimos da disputa política. A segunda pressupõe moderação no uso do poder, mesmo quando a lei permite determinada ação. Quando essas normas desaparecem, cada lado tenta utilizar todas as ferramentas disponíveis para neutralizar o outro, criando uma escalada que fragiliza as instituições.
No Brasil, esse processo pode ser observado quando partidos, lideranças e eleitores deixam de reconhecer a legitimidade de quem vence as eleições. A derrota passa a ser interpretada como consequência de fraude, manipulação ou conspiração. As instituições somente são respeitadas enquanto suas decisões coincidem com as preferências de determinado grupo. Esse raciocínio é incompatível com a democracia, porque participar de uma eleição significa aceitar previamente a possibilidade de perder. O democrata verdadeiro não é apenas aquele que celebra a própria vitória, mas principalmente aquele que reconhece o resultado quando é derrotado.
O filósofo e cientista político Marcos Nobre, em Limites da Democracia, analisa as transformações ocorridas no sistema político brasileiro desde as manifestações de junho de 2013. Para ele, o país passou por uma profunda mudança na forma de organização do conflito político. A antiga polarização partidária foi substituída por uma disputa mais radical, alimentada pela crise de representação, pela fragmentação social e pela circulação de discursos autoritários. Nesse ambiente, a agenda pública deixa de ser orientada pela busca de soluções concretas e passa a ser dominada por uma sucessão de conflitos simbólicos.
A socióloga Esther Solano também chama a atenção para o papel das guerras culturais, do ressentimento e do antipetismo na reorganização da política brasileira. Seus estudos demonstram que a polarização não pode ser explicada somente pelas decisões dos partidos. Ela envolve sentimentos de abandono, insegurança, medo, desconfiança e revolta contra as instituições tradicionais. Ignorar esses sentimentos ou tratar todos os eleitores do campo adversário como ignorantes, fanáticos ou moralmente inferiores apenas reforça a divisão. Para enfrentar o extremismo, é necessário compreender por que determinados discursos encontram espaço em parcelas significativas da sociedade.
As redes sociais ampliaram esse fenômeno. Seus mecanismos de recomendação privilegiam conteúdos capazes de provocar indignação, medo e raiva, pois essas emoções geram mais comentários, compartilhamentos e tempo de permanência nas plataformas. O cidadão passa a receber continuamente informações que confirmam suas convicções e apresentam o outro lado da maneira mais negativa possível. Aos poucos, forma-se uma realidade paralela na qual cada grupo possui seus próprios fatos, especialistas, jornalistas e referências. O debate público deixa de partir de uma base comum de realidade.
A polarização também empobrece a imprensa e a produção intelectual. Jornalistas são pressionados a abandonar a análise para assumir posições de torcida. Pesquisadores são julgados não pela qualidade de seus argumentos, mas pela suposta proximidade com determinado campo ideológico. Uma reportagem crítica ao governo pode ser classificada como golpista por um lado e como propaganda governista pelo outro. Nesse ambiente, o profissional que tenta preservar a independência corre o risco de ser atacado por todos. A verdade perde importância diante da necessidade de proteger a própria identidade política.
Outro efeito perigoso é a normalização da violência verbal. Quando autoridades, influenciadores e candidatos utilizam palavras agressivas contra os adversários, autorizam simbolicamente seus seguidores a fazer o mesmo. A desumanização começa com apelidos, insultos e acusações generalizadas, mas pode evoluir para ameaças e agressões físicas. Nenhuma democracia permanece saudável quando parte da população acredita que seus concidadãos representam um mal absoluto que precisa ser destruído.
O cientista político Yascha Mounk observa que sociedades diversas enfrentam o desafio de construir um sentimento de pertencimento que seja capaz de superar as divisões políticas, religiosas e culturais. Isso não significa apagar diferenças, mas criar uma identidade democrática comum. Pessoas de direita, de centro e de esquerda precisam reconhecer que, apesar das divergências, fazem parte do mesmo país e estão submetidas às mesmas regras. Quando desaparece esse vínculo, a vitória eleitoral passa a ser vista como autorização para dominar, humilhar ou excluir o grupo derrotado.
Reduzir a polarização não significa exigir neutralidade das pessoas nem proibir posicionamentos firmes. Também não significa colocar democracia e autoritarismo no mesmo plano ou fingir que todos os discursos possuem o mesmo valor. Uma sociedade democrática tem o direito de estabelecer limites claros contra a violência, a mentira deliberada, o racismo, a intolerância e as tentativas de ruptura institucional. O que precisa ser recuperado é a capacidade de distinguir o adversário democrático daquele que pretende destruir as regras do jogo.
Os partidos têm responsabilidade decisiva nesse processo. Em vez de organizar campanhas exclusivamente baseadas no medo do outro, deveriam apresentar projetos concretos para saúde, educação, segurança, emprego, habitação e desenvolvimento. Quando a política se resume a impedir a vitória do adversário, os problemas reais da população desaparecem da discussão. O eleitor é mobilizado emocionalmente, mas termina a eleição sem saber exatamente o que os vencedores pretendem fazer.
A educação política também é fundamental. Não basta ensinar como funcionam os poderes ou como se preenche uma urna. É necessário formar cidadãos capazes de verificar informações, reconhecer manipulações e conviver com opiniões diferentes. Aprender a debater, ouvir e discordar sem ofender deveria ser entendido como parte da formação democrática. A liberdade de expressão somente cumpre sua função quando acompanhada de responsabilidade e disposição para o diálogo.
A democracia brasileira já demonstrou capacidade de sobreviver a graves crises. Entretanto, nenhuma instituição é indestrutível. A erosão democrática geralmente não ocorre de uma única vez. Ela avança lentamente, por meio da relativização das regras, da deslegitimação dos adversários, da tolerância à violência e da transformação das instituições em instrumentos de vingança política.
O Brasil não precisa eliminar suas diferenças. Precisa aprender a administrá-las democraticamente. A pluralidade é uma riqueza quando produz debate, fiscalização e alternativas de poder. Torna-se uma ameaça quando transforma metade da população em inimiga da outra metade. Se cada eleição for encarada como a batalha final entre o bem e o mal, sempre haverá quem considere justificável romper as regras para impedir a vitória do adversário.
A democracia começa a enfraquecer quando o cidadão aceita o autoritarismo desde que seja praticado pelo seu próprio lado. Defendê-la exige coerência: as regras, os direitos e as liberdades que queremos para nós também precisam valer para aqueles de quem discordamos. O futuro democrático do Brasil dependerá menos da vitória permanente de um campo político e mais da capacidade coletiva de reconhecer que nenhum projeto de país pode ser construído sobre o ódio entre brasileiros.
