Vivemos uma época curiosa da história. Nunca a humanidade teve acesso a tanta informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil distinguir conhecimento de opinião. O celular transformou qualquer pessoa em potencial emissora de conteúdo para milhares ou milhões de indivíduos. Nesse novo cenário, uma pergunta inquietante se impõe: o brasileiro passou a confiar mais nos influenciadores digitais do que nos especialistas?
A resposta não é simples, mas os sinais apontam para uma mudança profunda na forma como a sociedade constrói credibilidade. Durante décadas, médicos eram ouvidos sobre saúde, economistas sobre finanças, engenheiros sobre infraestrutura e professores sobre educação. Hoje, muitas dessas vozes disputam espaço com influenciadores que, embora dominem a linguagem das redes sociais, frequentemente não possuem formação técnica ou experiência suficiente para tratar de temas complexos.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han observa que vivemos na “sociedade da transparência” e da hipercomunicação, onde a velocidade supera a reflexão. Para ele, o excesso de informação não produz necessariamente mais conhecimento. Ao contrário, gera um ambiente em que opiniões circulam com a mesma força que fatos, tornando difícil distinguir autoridade intelectual de popularidade. Nas redes sociais, quem comunica melhor muitas vezes é percebido como quem sabe mais.
O sociólogo Zygmunt Bauman, ao descrever a modernidade líquida, já alertava para uma sociedade em que as referências sólidas são constantemente substituídas por vínculos passageiros. A autoridade tradicional perdeu espaço para a influência momentânea. O especialista constrói sua reputação ao longo de décadas; o influenciador pode conquistar milhões de seguidores em poucos meses. A lógica da internet favorece quem desperta emoção, identificação e entretenimento, não necessariamente quem apresenta as melhores evidências.
O filósofo francês Gilles Lipovetsky também descreveu a ascensão da cultura do espetáculo e da valorização da imagem. Em uma sociedade marcada pelo imediatismo, a aparência de proximidade costuma ser mais persuasiva do que a autoridade científica. O influenciador fala como um amigo, compartilha sua rotina, cria vínculos emocionais e estabelece uma relação de confiança que muitos especialistas, acostumados à linguagem técnica, raramente conseguem construir.
Essa mudança ajuda a explicar por que tantos brasileiros procuram recomendações de investimentos, tratamentos médicos, dietas, medicamentos ou orientações jurídicas em vídeos de poucos minutos. O problema não está na existência dos influenciadores. Muitos produzem conteúdo sério, estudam os temas que abordam e contribuem positivamente para democratizar o acesso à informação. A preocupação surge quando a popularidade passa a substituir o conhecimento técnico e quando seguidores confundem fama com competência.
A própria Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) chamou atenção para esse fenômeno ao identificar que muitos criadores de conteúdo publicam informações sem realizar verificações adequadas das fontes, defendendo maior formação em checagem de fatos e educação midiática para quem influencia milhões de pessoas.
Alguns países já perceberam que a influência digital deixou de ser apenas uma questão de entretenimento para se tornar um tema de interesse público. Nos Estados Unidos, a Federal Trade Commission (FTC) obriga influenciadores a informar claramente quando uma publicação possui relação comercial com marcas, buscando reduzir a publicidade disfarçada de opinião espontânea.
Na Europa, especialmente nos Países Baixos e na Alemanha, a fiscalização sobre influenciadores tornou-se cada vez mais rigorosa. Além da obrigatoriedade de identificar conteúdos patrocinados, existem exigências relacionadas à transparência e ao cumprimento de padrões legais para determinadas alegações comerciais. Estudos mostram que mudanças na legislação influenciaram diretamente o comportamento dos criadores de conteúdo nesses países.
É importante fazer uma distinção. Em muitos debates públicos circula a ideia de que “em alguns países os influenciadores precisam comprovar tudo o que escrevem antes de publicar”. Na prática, essa regra geral não existe. O que há são legislações que obrigam a comprovação de determinadas alegações, especialmente quando envolvem publicidade, saúde, investimentos ou direitos do consumidor. Se um influenciador afirma que um produto cura doenças, promete resultados financeiros ou faz propaganda comercial, pode ser responsabilizado caso não consiga demonstrar que suas afirmações são verdadeiras. Não se trata de uma censura prévia, mas de uma responsabilização jurídica pelas informações divulgadas.
No Brasil, o debate também avança. Projetos em tramitação no Congresso Nacional discutem restringir a divulgação de conteúdos técnicos por influenciadores sem qualificação comprovada em áreas que possam representar riscos à população, especialmente saúde, finanças e outras atividades especializadas.
Talvez o maior desafio não esteja apenas nos influenciadores, mas no próprio público. A internet nos acostumou a acreditar que rapidez significa eficiência e que número de seguidores representa autoridade. Entretanto, conhecimento continua exigindo estudo, pesquisa, método e responsabilidade. Um vídeo viral não substitui anos de formação acadêmica. Um milhão de curtidas não transforma opinião em evidência científica.
O Brasil precisa fortalecer sua educação midiática. Desde cedo, crianças e adolescentes deveriam aprender a identificar fontes confiáveis, verificar informações, compreender diferenças entre publicidade e conteúdo jornalístico e reconhecer quando determinado assunto exige a palavra de um especialista. Essa talvez seja uma das competências mais importantes do século XXI.
Os influenciadores vieram para ficar e desempenham um papel relevante na comunicação contemporânea. Muitos prestam um excelente serviço à sociedade. O problema começa quando a fama ocupa o lugar da competência e quando a sociedade passa a acreditar que toda opinião tem o mesmo peso que o conhecimento construído pela ciência, pela pesquisa e pela experiência profissional.
No fim das contas, a pergunta não deveria ser se confiamos mais em influenciadores ou em especialistas. A questão realmente importante é saber se ainda valorizamos a verdade acima da popularidade. Porque seguidores podem ser comprados, algoritmos podem ser manipulados e vídeos podem viralizar em poucas horas. Credibilidade, porém, continua sendo construída da mesma forma de sempre: com estudo, responsabilidade, honestidade intelectual e compromisso permanente com os fatos.
